Anatomia, Origens e Avaliação Neurorradiológica
Os doze pares cranianos originam-se do encéfalo e do tronco encefálico, emergindo pela superfície ventral e lateral do SNC. Inclui avaliação por RM (CISS/FIESTA) e correlações clínicas.
Os doze pares cranianos originam-se do encéfalo e do tronco encefálico (mesencéfalo, ponte e bulbo), emergindo pela superfície ventral e lateral do SNC antes de atravessarem os forames e fissuras da base do crânio. Suas origens reais distribuem-se desde o bulbo olfatório (NC I) no telencéfalo até o sulco lateral do bulbo (NC IX, X, XI) e o sulco anterolateral do bulbo (NC XII). Os trajetos cisternas basilares, forame jugular, canal hipoglosso, fissura orbitária superior, canal óptico e forames oval, redondo e espinhoso são as estruturas-chave da base craneana que balizam a avaliação radiológica [1,2]. A cisterna pontocerebelar (CPC), a cisterna do ângulo pontocerebelar (APC), a cisterna interpeduncular e a cisterna quiasmática constituem os principais compartimentos líquóricos nos quais os nervos são visualizados como estruturas lineares hipointensas contrastando com o hipersinal T2 do LCR nas sequências CISS/FIESTA [2,3].
Dimensões: Extremamente variáveis entre os pares. NC II (nervo óptico): 3–5 mm de diâmetro no segmento orbitário; NC VIII: raiz coclear e vestibular visíveis no meato acústico interno (MAI) como estruturas de ~1,5–2 mm cada; NC V: raiz sensitiva com diâmetro médio de 3–5 mm na cisterna; NC III: 2–3 mm de diâmetro no segmento cisternal. Estruturas menores (NC IV, VI) frequentemente abaixo da resolução da RM convencional de 1,5 T sem sequências dedicadas de alta resolução [1,3].
NC I — Nervo Olfatório
Único nervo craniano formado por neurônios de primeira ordem cujos corpos celulares residem diretamente na mucosa olfatória do epitélio pseudoestratificado da fossa nasal superior (áreas olfatórias do septo e corneto superior). Os axônios amielínicos formam 15–20 fílios olfatórios que atravessam a lâmina cribriforme do osso etmoide em múltiplos foraminhos e fazem sinapse no bulbo olfatório — estrutura ovalada posicionada na fossa craniana anterior, sobre a lâmina cribriforme, com extensão posterior pelo trato olfatório até os centros olfatórios primários (córtex piriforme, área entorrinal, amígdala). Não possui gânglio, não atravessa o tronco encefálico e tecnicamente é uma expansão do prosencéfalo, não um nervo periférico clássico.
—Origen real: células bipolares da mucosa olfatória nasal.
—Origem aparente: superfície inferior do bulbo olfatório.
—Forame de saída: lâmina cribriforme do etmoide (múltiplos foraminhos de 0,5–1 mm).
Função: Exclusivamente sensitiva especial: olfação. Conduz estímulos olfatórios da mucosa nasal ao bulbo olfatório ipsilateral e às áreas olfatórias primárias do lobo temporal medial. Sem componentes motor, parassimpático ou somático.
NC II — Nervo Óptico
Tecnicamente um trato do SNC mielinizado por oligodendrócitos (não por células de Schwann), revestido pelas três meninges (dura, aracnoide e pia-máter), com espaço subaracnóideo perióptico contendo LCR. Formado pelos axônios das células ganglionares da retina que convergem para o disco óptico e emergem pelo canal escleral posterior. Composto por ~1,2 milhão de fibras.
—Trajeto: segmento intraocular (1 mm) → segmento intraorbitário (~25 mm, sinuoso, com mobilidade para movimentos oculares) → segmento intracanalicular (~9 mm no canal óptico, acompanhado da artéria oftálmica) → segmento intracraniano (~15 mm até o quiasma óptico). No quiasma, as fibras nasais (campo visual temporal) cruzam para o trato óptico contralateral; as fibras temporais (campo visual nasal) permanecem ipsilaterais.
—Origem real: células ganglionares da retina.
—Origem aparente: disco óptico (papila óptica).
—Forame de saída: canal óptico (junto com artéria oftálmica).
Função: Sensitiva especial exclusiva: visão. Conduz informação visual da retina ao córtex visual occipital via trato óptico, corpo geniculado lateral do tálamo e radiações ópticas. Lesões no quiasma causam hemianopsia bitemporal (clássica em macroadenoma hipofisário); lesões pré-quiasmáticas causam defeitos monoculares; lesões pós-quiasmáticas causam hemianopsias homônimas.
NC III — Nervo Oculomotor
Nervo motor somático e parassimpático visceral. Origina-se do núcleo oculomotor somático no mesencéfalo dorsal (nível do colículo superior, adjacente ao aqueduto cerebral) e do núcleo de Edinger-Westphal (parassimpático, mesencéfalo dorsal). Emerge na fossa interpeduncular, entre o pedúnculo cerebral e a artéria cerebral superior (SCA) medialmente e a artéria comunicante posterior (ACoP) lateralmente — relação neurovascular crítica para aneurismas. Percorre a parede lateral do seio cavernoso (divisão superior), atravessa a fissura orbitária superior e entra na órbita dividindo-se em ramo superior (reto superior e levantador da pálpebra) e inferior (reto medial, reto inferior, oblíquo inferior e parassimpático para o esfíncter da pupila via gânglio ciliar).
—Origem real: núcleo oculomotor (tegmento mesencefálico).
—Origem aparente: fossa interpeduncular.
—Forame de saída: fissura orbitária superior.
Função: Motor somático: movimentos oculares (reto superior, inferior, medial; oblíquo inferior) e levantador da pálpebra superior. Parassimpático pré-ganglionar (Edinger-Westphal): miose (via gânglio ciliar → esfíncter da pupila) e acomodação (músculo ciliar). Paralisia completa do NC III: ptose, oftalmoplegia (olho em abdução e depressão — 'down and out'), midríase fixa (se envolvimento parassimpático — aneurisma). Paralisia com pupila poupada sugere causa isquêmica (diabetes).
NC IV — Nervo Troclear
O menor nervo craniano em calibre e o único que emerge da face DORSAL do tronco encefálico (todos os demais emergem ventralmente ou lateralmente). O único que cruza completamente antes de emergir — as fibras decussam no véu medular superior antes de emergir abaixo do colículo inferior. Contorna o pedúnculo cerebral de posterior para anterior, passa pelo espaço entre a artéria cerebelar superior e a artéria cerebral posterior (PCA), percorre a parede lateral do seio cavernoso abaixo do NC III e entra na órbita pela fissura orbitária superior, inervando o músculo oblíquo superior contralateral.
—Origem real: núcleo troclear (tegmento mesencefálico caudal, nível do colículo inferior).
—Origem aparente: superfície dorsal do mesencéfalo, abaixo do colículo inferior.
—Forame de saída: fissura orbitária superior.
Função: Motor somático exclusivo: inervação do músculo oblíquo superior que promove introversão (depressão do olho aduzido), intorsão e abdução parcial. Paralisia do NC IV causa diplopia vertical e torcicolo compensatório — paciente inclina a cabeça para o lado oposto ao nervo afetado (sinal de Bielschowsky positivo). Frequentemente traumatizado em trauma craniano (trajeto longo e delgado, com decussação no véu medular — vulnerável a lesão por contracoup).
NC V — Nervo Trigêmeo
O maior nervo craniano, com duas raízes distintas: raiz sensitiva maior (portio major — gânglio trigeminal de Gasser com três divisões) e raiz motora menor (portio minor — para músculos mastigatórios). O gânglio trigeminal (semilunar, de Gasser) localiza-se no cavum de Meckel — cavidade epidural na face anterolateral da fossa posterior, entre as camadas da dura-máter (cave of Meckel).
—As três divisões emergem do gânglio: V1 (oftálmica — fissura orbitária superior), V2 (maxilar — forame redondo → fossa pterigopalatina) e V3 (mandibular — forame oval, com a raiz motora). A raiz sensitiva emerge na face anterolateral da ponte (junção ponto-peduncular); a zona de entrada da raiz (REZ — root entry zone) é o sítio de conflito neurovascular mais frequente (artéria cerebelar superior em 75–80%).
—Origem real: núcleos sensitivos (mesencefálico, principal pontino, espinhal) e motor (tegmento pontino).
—Origem aparente: face anterolateral da ponte.
—Forame de saída: V1 — fissura orbitária superior; V2 — forame redondo; V3 — forame oval.
Função: Sensitiva geral: face, couro cabeludo anterior, cornea, mucosas oral e nasal, seios paranasais, dura-máter da fossa anterior e média, dentes. Motor: músculos da mastigação (masseter, temporal, pterigóideos), tensor do véu palatino, tensor do tímpano, milo-hióideo, ventre anterior do digástrico. Parassimpático: não diretamente (fibras parassimpáticas de NC VII e IX viajam 'caronas' em ramos do NC V para glândulas). Clinicamente central: neuralgia do trigêmeo (dor paroxística lancinante — conflito neurovascular na REZ), síndrome do seio cavernoso (paralisia de V1/V2 + NC III, IV, VI).
NC VI — Nervo Abducente
Nervo com o trajeto intracraniano mais longo após a emergência, tornando-o vulnerável a múltiplas lesões ao longo do percurso. Emerge no sulco bulbopontino (junção ponto-bulbar ventral), sobe pela cisterna prépontina em íntima relação com a artéria basilar, perfura a dura-máter do clivo (dorelo), atravessa o Canal de Dorello (espaço entre o ligamento petroclinoide e o ápice petroso — sítio de compressão em hipertensão intracraniana), entra no seio cavernoso (único nervo que percorre o interior do seio — os demais percorrem sua parede lateral), atravessa a fissura orbitária superior e inerva exclusivamente o músculo reto lateral.
—Origem real: núcleo abducente (tegmento pontino caudal, no assoalho do quarto ventrículo).
—Origem aparente: sulco bulbopontino.
—Forame de saída: fissura orbitária superior (via Canal de Dorello e seio cavernoso).
Função: Motor somático exclusivo: abdução do olho via músculo reto lateral. Paralisia do NC VI causa estrabismo convergente (esotropia) com diplopia horizontal — o olho afetado não abduz além da linha média. Por ser indicador precoce e sensível de hipertensão intracraniana (lesão de falsa localização — 'false localizing sign'), paralisia bilateral do NC VI em paciente com cefaleia obriga investigação urgente de pressão intracraniana elevada independentemente de outra patologia localizada.
NC VII — Nervo Facial
Nervo misto com quatro componentes funcionais distintos que viajam juntos pelo meato acústico interno (MAI) e pelo canal facial (canal de Falópio) antes de se separarem. Emerge no sulco bulbopontino, lateral ao NC VI e medial ao NC VIII, e percorre a cisterna do APC junto com o NC VIII e a artéria cerebelar ânteroinferior (AICA — artéria do labirinto). O componente motor somático contorna o núcleo abducente formando o joelho interno do facial (colículo facial no assoalho do quarto ventrículo) antes de emergir. No MAI, o facial ocupa o quadrante anterossuperior (mnemônica: '7 upper, 8 lower').
—No canal de Falópio percorre três segmentos: labiríntico (mais estreito — 0,7 mm, sítio de compressão em Bell's palsy), timpânico e mastoideo. O gânglio geniculado (sensitivo — no joelho do canal de Falópio) emite o nervo petroso maior (parassimpático para glândula lacrimal via NC V1).
—Origem real: núcleo motor facial (tegmento pontino), núcleo salivatório superior (parassimpático) e núcleo do trato solitário (sensitivo visceral).
—Origem aparente: sulco bulbopontino.
—Forame de saída: MAI → canal de Falópio → forame estilomastoideo.
Função: Motor somático (portio major): músculos mímicos faciais, estapédio, estilo-hióideo, ventre posterior do digástrico. Parassimpático (corda do tímpano → NC V3 → gânglio submandibular): glândulas submandibular e sublingual (via corda do tímpano). Parassimpático (nervo petroso maior → gânglio pterigopalatino → NC V2): glândula lacrimal e mucosas nasais. Sensitiva especial (corda do tímpano): paladar nos 2/3 anteriores da língua. Sensitiva geral: pequena área da concha auricular (zona de Ramsay Hunt). Paralisia periférica (Bell's palsy, síndrome de Ramsay-Hunt): paralisia ipsilateral completa incluindo fronte. Paralisia central (AVC): poupamento relativo da fronte (inervação cortical bilateral do núcleo facial superior).
NC VIII — Nervo Vestibulococlear (Estatoacústico)
Composto por duas raízes funcionalmente distintas que compartilham o mesmo bainha: raiz coclear (espiral — audição) e raiz vestibular (audição e equilíbrio). Os corpos celulares bipolares da raiz coclear residem no gânglio espiral (gânglio de Corti), localizado no modíolo da cóclea; seus axônios centrais formam o nervo coclear que percorre o canal coclear inferior do MAI. Os corpos celulares da raiz vestibular residem no gânglio de Scarpa (gânglio vestibular), localizado no fundo do MAI; divide-se em divisões superior (utrículo, canais semicirculares superior e lateral — nervo facial superior no MAI) e inferior (sáculo e canal semicircular posterior — canal singular). No MAI, o NC VIII ocupa os quadrantes inferiores (anteroinferior = coclear; posteroinferior = vestibular inferior; posterossuperior = vestibular superior). O NC VIII percorre a cisterna do APC em íntima relação com o NC VII e a AICA.
—Origem real: gânglio espiral (coclear) e gânglio de Scarpa (vestibular).
—Origem aparente: sulco bulbopontino (lateral ao NC VII).
—Forame de saída: MAI (poro acústico interno).
Função: Sensitiva especial exclusiva: audição (raiz coclear — frequências de 20–20.000 Hz com maior sensibilidade em 1.000–4.000 Hz) e equilíbrio/propriocepção vestibular (raiz vestibular — detecta aceleração linear via máculas do utrículo/sáculo e aceleração angular via cúpulas dos canais semicirculares). Patologias: schwannoma vestibular (tumor do APC mais frequente — 80–90%, originado da bainha de mielina do nervo vestibular superior no segmento cisternal/intracanalicular), neurite vestibular, labirintite, surdez neurossensorial súbita (SSHL).
NC IX — Nervo Glossofaríngeo
Nervo misto com múltiplos componentes que emerge em múltiplas radículas do sulco lateral posterior do bulbo, acima do NC X, e atravessa o forame jugular no compartimento nervoso (pars nervosa), separado do NC X/XI pelo septo fibroso intrajugular.
—Possui dois gânglios: superior (intrajugular — sensitivo somático) e inferior (petroso — sensitivo visceral e gustativo). O nervo de Hering (ramo do seio carotídeo) é clinicamente relevante — inerva o seio carotídeo (barorreceptor) e o corpo carotídeo (quimiorreceptor). A corda timpânica percorre o osso petroso até o ouvido médio (plexo timpânico de Jacobson) e sai como nervo petroso menor para o gânglio ótico (parassimpático da parótida).
—Origem real: núcleo ambíguo (motor), núcleo salivatório inferior (parassimpático), núcleo do trato solitário (sensitivo visceral/gustativo), núcleo espinhal do V (sensitivo geral).
—Origem aparente: sulco posterolateral do bulbo (acima do NC X).
—Forame de saída: forame jugular (compartimento nervoso/pars nervosa).
Função: Motor: músculo estilofaríngeo (elevação da faringe na deglutição). Parassimpático: glândula parótida (via nervo petroso menor → gânglio ótico → nervo auriculotemporal [V3]). Sensitiva geral: faringe posterior, terço posterior da língua, amígdala, palato mole, tuba auditiva, ouvido médio. Sensitiva especial (gustativa): paladar no terço posterior da língua. Barorreceptores (seio carotídeo) e quimiorreceptores (corpo carotídeo). Síndrome de vernet (forame jugular): paralisia ipsilateral de NC IX, X e XI.
NC X — Nervo Vago
O nervo craniano com maior distribuição periférica, responsável pela inervação parassimpática de vísceras torácicas e abdominais até o ângulo esplênico do cólon. Emerge em múltiplas radículas do sulco posterolateral do bulbo, abaixo do NC IX, atravessa o forame jugular (compartimento vascular — junto com o NC XI e a veia jugular interna), e possui dois gânglios: superior (jugular — sensitivo somático, na parede do forame) e inferior (nodoso — sensitivo visceral, abaixo do forame). Após o gânglio nodoso, divide-se em ramos: faríngeo (faringe e palato mole — junto com NC IX), laríngeo superior (mucosa supraglótica e músculo cricotireóideo), laríngeo recorrente (todos os músculos intrínsecos da laringe exceto cricotireóideo, mucosa subglótica), ramos cardíacos, broncopulmonares, esofágicos e gástricos. O nervo laríngeo recorrente esquerdo contorna o arco aórtico — sítio de vulnerabilidade a neoplasias mediastinais e aneurismas aórticos.
—Origem real: núcleo ambíguo (motor), núcleo motor dorsal do vago (parassimpático), núcleo do trato solitário (sensitivo visceral), núcleo espinhal do V (sensitivo geral).
—Origem aparente: sulco posterolateral do bulbo.
—Forame de saída: forame jugular (compartimento vascular).
Função: Motor: músculos do palato mole (exceto tensor), faringe (exceto estilofaríngeo), laringe (via nervos laríngeos). Parassimpático: coração (bradicardia, redução da condutividade AV), pulmões (broncoconstrição, aumento de secreções), esôfago, estômago, intestino delgado, cólon até ângulo esplênico (peristaltismo, secreções glandulares). Sensitiva geral: dura-máter da fossa posterior, pavilhão auricular (ramo auricular — nervo de Arnold — reflexo vasovagal por estimulação do MAE). Sensitiva visceral: vísceras torácicas e abdominais (nocicepção visceral). Paralisia do vago: rouquidão (paralisia de prega vocal), disfagia, aspiração, taquicardia reflexa, íleo paralítico.
NC XI — Nervo Acessório (Espinhal)
O único nervo craniano com origem tanto no bulbo (raiz cranial) quanto na medula espinhal cervical (raiz espinhal). A raiz espinhal origina-se dos cornos anterolaterais de C1–C5/C6, sobe pelo forame magno dentro do canal espinhal, junta-se à raiz cranial no forame jugular e depois se separa novamente: a raiz cranial une-se ao NC X (ramo interno — músculos laríngeos via nervo laríngeo recorrente); a raiz espinhal (ramo externo — NC XI propriamente) desce pelo pescoço lateral, perfura o músculo esternocleidomastoideo (ECM) e atinge o músculo trapézio. Atravessa o forame jugular no compartimento vascular (junto com NC X e veia jugular interna).
—Origem real: núcleo ambíguo (raiz cranial) e neurônios motores anteriores de C1–C5 (raiz espinhal).
—Origem aparente: sulco posterolateral do bulbo (raiz cranial) e raízes de C1–C5 (raiz espinhal).
—Forame de saída: forame jugular (compartimento vascular) → forame magno.
Função: Motor somático exclusivo: esternocleidomastoideo (rotação da cabeça para o lado contralateral e flexão ipsilateral) e trapézio (elevação do ombro, retração e rotação da escápula). A raiz cranial contribui para inervação dos músculos laríngeos via NC X. Lesão do NC XI: queda do ombro ipsilateral, incapacidade de elevar o ombro acima de 90°, desvio da escápula ('scapula winging' por paralisia do trapézio), dificuldade para girar a cabeça contra resistência para o lado contralateral.
NC XII — Nervo Hipoglosso
Nervo motor puro, origina-se em múltiplas radículas do sulco anterolateral do bulbo (entre a oliva bulbar e a pirâmide), atravessa o espaço subaracnóideo da cisterna pré-medular, atravessa o canal hipoglosso (forame hipoglosso — na porção medial do côndilo occipital), percorre o espaço retrofaríngeo lateral e espaço parafaríngeo, contornando o ângulo da mandíbula abaixo do NC IX e X, antes de inervar toda a musculatura intrínseca e extrínseca ipsilateral da língua (exceto o palatoglosso — NC X). A artéria faríngea ascendente (ramo da artéria carótida externa) acompanha o nervo no canal.
—Origem real: núcleo hipoglosso (coluna cinzenta anterior do bulbo, adjacente ao assoalho do quarto ventrículo — trígono do hipoglosso).
—Origem aparente: sulco anterolateral do bulbo (entre pirâmide e oliva).
—Forame de saída: canal hipoglosso.
Função: Motor somático exclusivo: toda a musculatura da língua (genioglosso, hioglosso, estiloglosso — músculos extrínsecos; longitudinal superior e inferior, transverso e vertical — músculos intrínsecos). Paralisia periférica do NC XII: protrusão da língua desvia PARA O LADO LESADO (o genioglosso contralateral empurra a língua para o lado paralisado). Atrofia e fasciculações ipsilaterais visíveis na paralisia periférica. Paralisia central (piramidal): sem atrofia, desvio lingual contralateral à lesão. Lesão nuclear bilateral (ELA): atrofia severa, fasciculações e anartria — síndrome bulbar.
A tomografia computadorizada tem papel complementar e específico na avaliação dos nervos cranianos, com foco principal na caracterização óssea dos forames e canais por onde os nervos transitam [1,5]. A TC de alta resolução em janela óssea (HRCT — High Resolution CT) com reconstruções multiplanares (MPR) e reconstruções em volume (VRT) dos ossos da base do crânio é o método de referência para avaliação do canal óptico, fissura orbitária superior, forame redondo, forame oval, forame espinhoso, forame jugular, canal hipoglosso, canal facial e MAI [5]. O alargamento ou erosão de um forame é sinal altamente específico de lesão expansiva (schwannoma, meningioma, paraganglioma, infiltração neoplásica). A TC com contraste tem papel secundário na avaliação do componente de partes moles, sendo superada pela RM com gadolínio [2].
A RM de alta resolução é o método padrão-ouro para avaliação dos nervos cranianos, permitindo visualização direta do trajeto cisternal, intracanalicular e dos segmentos foraminal e extracraniano na grande maioria dos pares [2,3]. As sequências CISS (Constructive Interference in Steady State — Siemens), FIESTA (Fast Imaging Employing Steady-state Acquisition — GE) e DRIVE (Driven Equilibrium — Philips) são sequências T2 fortemente pesadas com isotropia de voxel (tipicamente 0,4–0,8 mm³), que produzem hipersinal intenso do LCR nas cisternas basilares enquanto os nervos aparecem como estruturas hipointensas lineares ou cilíndricas de alto contraste — permitindo resolução espacial suficiente para individualizar os nervos no MAI, na cisterna do APC e na cisterna pontocerebelar [3,4]. Sequências 3D TOF-MRA (Time of Flight) permitem avaliação simultânea das relações neurovasculares (conflitos entre artérias e a raiz nervosa — especialmente na neuralgia do trigêmeo e hemispasmo facial). A RM com gadolínio (T1 com supressão de gordura em alta resolução) é essencial para avaliação de schwannomas, meningiomas, neurites e infiltração perineural de neoplasias (carcinomas de cabeça e pescoço) [1,2].
3D — Modelo 3D Interativo dos Nervos Cranianos. Navegue, amplie e gire para visualizar as origens aparentes no tronco encefálico.