NeuroanatomiaAvançado

Nervos Cranianos

Anatomia, Origens e Avaliação Neurorradiológica

Os doze pares cranianos originam-se do encéfalo e do tronco encefálico, emergindo pela superfície ventral e lateral do SNC. Inclui avaliação por RM (CISS/FIESTA) e correlações clínicas.

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Localização Topográfica

Os doze pares cranianos originam-se do encéfalo e do tronco encefálico (mesencéfalo, ponte e bulbo), emergindo pela superfície ventral e lateral do SNC antes de atravessarem os forames e fissuras da base do crânio. Suas origens reais distribuem-se desde o bulbo olfatório (NC I) no telencéfalo até o sulco lateral do bulbo (NC IX, X, XI) e o sulco anterolateral do bulbo (NC XII). Os trajetos cisternas basilares, forame jugular, canal hipoglosso, fissura orbitária superior, canal óptico e forames oval, redondo e espinhoso são as estruturas-chave da base craneana que balizam a avaliação radiológica [1,2]. A cisterna pontocerebelar (CPC), a cisterna do ângulo pontocerebelar (APC), a cisterna interpeduncular e a cisterna quiasmática constituem os principais compartimentos líquóricos nos quais os nervos são visualizados como estruturas lineares hipointensas contrastando com o hipersinal T2 do LCR nas sequências CISS/FIESTA [2,3].

Dimensões: Extremamente variáveis entre os pares. NC II (nervo óptico): 3–5 mm de diâmetro no segmento orbitário; NC VIII: raiz coclear e vestibular visíveis no meato acústico interno (MAI) como estruturas de ~1,5–2 mm cada; NC V: raiz sensitiva com diâmetro médio de 3–5 mm na cisterna; NC III: 2–3 mm de diâmetro no segmento cisternal. Estruturas menores (NC IV, VI) frequentemente abaixo da resolução da RM convencional de 1,5 T sem sequências dedicadas de alta resolução [1,3].

NC I — Nervo Olfatório

Único nervo craniano formado por neurônios de primeira ordem cujos corpos celulares residem diretamente na mucosa olfatória do epitélio pseudoestratificado da fossa nasal superior (áreas olfatórias do septo e corneto superior). Os axônios amielínicos formam 15–20 fílios olfatórios que atravessam a lâmina cribriforme do osso etmoide em múltiplos foraminhos e fazem sinapse no bulbo olfatório — estrutura ovalada posicionada na fossa craniana anterior, sobre a lâmina cribriforme, com extensão posterior pelo trato olfatório até os centros olfatórios primários (córtex piriforme, área entorrinal, amígdala). Não possui gânglio, não atravessa o tronco encefálico e tecnicamente é uma expansão do prosencéfalo, não um nervo periférico clássico.
Origen real: células bipolares da mucosa olfatória nasal.
Origem aparente: superfície inferior do bulbo olfatório.
Forame de saída: lâmina cribriforme do etmoide (múltiplos foraminhos de 0,5–1 mm).

Função: Exclusivamente sensitiva especial: olfação. Conduz estímulos olfatórios da mucosa nasal ao bulbo olfatório ipsilateral e às áreas olfatórias primárias do lobo temporal medial. Sem componentes motor, parassimpático ou somático.

NC II — Nervo Óptico

Tecnicamente um trato do SNC mielinizado por oligodendrócitos (não por células de Schwann), revestido pelas três meninges (dura, aracnoide e pia-máter), com espaço subaracnóideo perióptico contendo LCR. Formado pelos axônios das células ganglionares da retina que convergem para o disco óptico e emergem pelo canal escleral posterior. Composto por ~1,2 milhão de fibras.
Trajeto: segmento intraocular (1 mm) → segmento intraorbitário (~25 mm, sinuoso, com mobilidade para movimentos oculares) → segmento intracanalicular (~9 mm no canal óptico, acompanhado da artéria oftálmica) → segmento intracraniano (~15 mm até o quiasma óptico). No quiasma, as fibras nasais (campo visual temporal) cruzam para o trato óptico contralateral; as fibras temporais (campo visual nasal) permanecem ipsilaterais.
Origem real: células ganglionares da retina.
Origem aparente: disco óptico (papila óptica).
Forame de saída: canal óptico (junto com artéria oftálmica).

Função: Sensitiva especial exclusiva: visão. Conduz informação visual da retina ao córtex visual occipital via trato óptico, corpo geniculado lateral do tálamo e radiações ópticas. Lesões no quiasma causam hemianopsia bitemporal (clássica em macroadenoma hipofisário); lesões pré-quiasmáticas causam defeitos monoculares; lesões pós-quiasmáticas causam hemianopsias homônimas.

NC III — Nervo Oculomotor

Nervo motor somático e parassimpático visceral. Origina-se do núcleo oculomotor somático no mesencéfalo dorsal (nível do colículo superior, adjacente ao aqueduto cerebral) e do núcleo de Edinger-Westphal (parassimpático, mesencéfalo dorsal). Emerge na fossa interpeduncular, entre o pedúnculo cerebral e a artéria cerebral superior (SCA) medialmente e a artéria comunicante posterior (ACoP) lateralmente — relação neurovascular crítica para aneurismas. Percorre a parede lateral do seio cavernoso (divisão superior), atravessa a fissura orbitária superior e entra na órbita dividindo-se em ramo superior (reto superior e levantador da pálpebra) e inferior (reto medial, reto inferior, oblíquo inferior e parassimpático para o esfíncter da pupila via gânglio ciliar).
Origem real: núcleo oculomotor (tegmento mesencefálico).
Origem aparente: fossa interpeduncular.
Forame de saída: fissura orbitária superior.

Função: Motor somático: movimentos oculares (reto superior, inferior, medial; oblíquo inferior) e levantador da pálpebra superior. Parassimpático pré-ganglionar (Edinger-Westphal): miose (via gânglio ciliar → esfíncter da pupila) e acomodação (músculo ciliar). Paralisia completa do NC III: ptose, oftalmoplegia (olho em abdução e depressão — 'down and out'), midríase fixa (se envolvimento parassimpático — aneurisma). Paralisia com pupila poupada sugere causa isquêmica (diabetes).

NC IV — Nervo Troclear

O menor nervo craniano em calibre e o único que emerge da face DORSAL do tronco encefálico (todos os demais emergem ventralmente ou lateralmente). O único que cruza completamente antes de emergir — as fibras decussam no véu medular superior antes de emergir abaixo do colículo inferior. Contorna o pedúnculo cerebral de posterior para anterior, passa pelo espaço entre a artéria cerebelar superior e a artéria cerebral posterior (PCA), percorre a parede lateral do seio cavernoso abaixo do NC III e entra na órbita pela fissura orbitária superior, inervando o músculo oblíquo superior contralateral.
Origem real: núcleo troclear (tegmento mesencefálico caudal, nível do colículo inferior).
Origem aparente: superfície dorsal do mesencéfalo, abaixo do colículo inferior.
Forame de saída: fissura orbitária superior.

Função: Motor somático exclusivo: inervação do músculo oblíquo superior que promove introversão (depressão do olho aduzido), intorsão e abdução parcial. Paralisia do NC IV causa diplopia vertical e torcicolo compensatório — paciente inclina a cabeça para o lado oposto ao nervo afetado (sinal de Bielschowsky positivo). Frequentemente traumatizado em trauma craniano (trajeto longo e delgado, com decussação no véu medular — vulnerável a lesão por contracoup).

NC V — Nervo Trigêmeo

O maior nervo craniano, com duas raízes distintas: raiz sensitiva maior (portio major — gânglio trigeminal de Gasser com três divisões) e raiz motora menor (portio minor — para músculos mastigatórios). O gânglio trigeminal (semilunar, de Gasser) localiza-se no cavum de Meckel — cavidade epidural na face anterolateral da fossa posterior, entre as camadas da dura-máter (cave of Meckel).
As três divisões emergem do gânglio: V1 (oftálmica — fissura orbitária superior), V2 (maxilar — forame redondo → fossa pterigopalatina) e V3 (mandibular — forame oval, com a raiz motora). A raiz sensitiva emerge na face anterolateral da ponte (junção ponto-peduncular); a zona de entrada da raiz (REZ — root entry zone) é o sítio de conflito neurovascular mais frequente (artéria cerebelar superior em 75–80%).
Origem real: núcleos sensitivos (mesencefálico, principal pontino, espinhal) e motor (tegmento pontino).
Origem aparente: face anterolateral da ponte.
Forame de saída: V1 — fissura orbitária superior; V2 — forame redondo; V3 — forame oval.

Função: Sensitiva geral: face, couro cabeludo anterior, cornea, mucosas oral e nasal, seios paranasais, dura-máter da fossa anterior e média, dentes. Motor: músculos da mastigação (masseter, temporal, pterigóideos), tensor do véu palatino, tensor do tímpano, milo-hióideo, ventre anterior do digástrico. Parassimpático: não diretamente (fibras parassimpáticas de NC VII e IX viajam 'caronas' em ramos do NC V para glândulas). Clinicamente central: neuralgia do trigêmeo (dor paroxística lancinante — conflito neurovascular na REZ), síndrome do seio cavernoso (paralisia de V1/V2 + NC III, IV, VI).

NC VI — Nervo Abducente

Nervo com o trajeto intracraniano mais longo após a emergência, tornando-o vulnerável a múltiplas lesões ao longo do percurso. Emerge no sulco bulbopontino (junção ponto-bulbar ventral), sobe pela cisterna prépontina em íntima relação com a artéria basilar, perfura a dura-máter do clivo (dorelo), atravessa o Canal de Dorello (espaço entre o ligamento petroclinoide e o ápice petroso — sítio de compressão em hipertensão intracraniana), entra no seio cavernoso (único nervo que percorre o interior do seio — os demais percorrem sua parede lateral), atravessa a fissura orbitária superior e inerva exclusivamente o músculo reto lateral.
Origem real: núcleo abducente (tegmento pontino caudal, no assoalho do quarto ventrículo).
Origem aparente: sulco bulbopontino.
Forame de saída: fissura orbitária superior (via Canal de Dorello e seio cavernoso).

Função: Motor somático exclusivo: abdução do olho via músculo reto lateral. Paralisia do NC VI causa estrabismo convergente (esotropia) com diplopia horizontal — o olho afetado não abduz além da linha média. Por ser indicador precoce e sensível de hipertensão intracraniana (lesão de falsa localização — 'false localizing sign'), paralisia bilateral do NC VI em paciente com cefaleia obriga investigação urgente de pressão intracraniana elevada independentemente de outra patologia localizada.

NC VII — Nervo Facial

Nervo misto com quatro componentes funcionais distintos que viajam juntos pelo meato acústico interno (MAI) e pelo canal facial (canal de Falópio) antes de se separarem. Emerge no sulco bulbopontino, lateral ao NC VI e medial ao NC VIII, e percorre a cisterna do APC junto com o NC VIII e a artéria cerebelar ânteroinferior (AICA — artéria do labirinto). O componente motor somático contorna o núcleo abducente formando o joelho interno do facial (colículo facial no assoalho do quarto ventrículo) antes de emergir. No MAI, o facial ocupa o quadrante anterossuperior (mnemônica: '7 upper, 8 lower').
No canal de Falópio percorre três segmentos: labiríntico (mais estreito — 0,7 mm, sítio de compressão em Bell's palsy), timpânico e mastoideo. O gânglio geniculado (sensitivo — no joelho do canal de Falópio) emite o nervo petroso maior (parassimpático para glândula lacrimal via NC V1).
Origem real: núcleo motor facial (tegmento pontino), núcleo salivatório superior (parassimpático) e núcleo do trato solitário (sensitivo visceral).
Origem aparente: sulco bulbopontino.
Forame de saída: MAI → canal de Falópio → forame estilomastoideo.

Função: Motor somático (portio major): músculos mímicos faciais, estapédio, estilo-hióideo, ventre posterior do digástrico. Parassimpático (corda do tímpano → NC V3 → gânglio submandibular): glândulas submandibular e sublingual (via corda do tímpano). Parassimpático (nervo petroso maior → gânglio pterigopalatino → NC V2): glândula lacrimal e mucosas nasais. Sensitiva especial (corda do tímpano): paladar nos 2/3 anteriores da língua. Sensitiva geral: pequena área da concha auricular (zona de Ramsay Hunt). Paralisia periférica (Bell's palsy, síndrome de Ramsay-Hunt): paralisia ipsilateral completa incluindo fronte. Paralisia central (AVC): poupamento relativo da fronte (inervação cortical bilateral do núcleo facial superior).

NC VIII — Nervo Vestibulococlear (Estatoacústico)

Composto por duas raízes funcionalmente distintas que compartilham o mesmo bainha: raiz coclear (espiral — audição) e raiz vestibular (audição e equilíbrio). Os corpos celulares bipolares da raiz coclear residem no gânglio espiral (gânglio de Corti), localizado no modíolo da cóclea; seus axônios centrais formam o nervo coclear que percorre o canal coclear inferior do MAI. Os corpos celulares da raiz vestibular residem no gânglio de Scarpa (gânglio vestibular), localizado no fundo do MAI; divide-se em divisões superior (utrículo, canais semicirculares superior e lateral — nervo facial superior no MAI) e inferior (sáculo e canal semicircular posterior — canal singular). No MAI, o NC VIII ocupa os quadrantes inferiores (anteroinferior = coclear; posteroinferior = vestibular inferior; posterossuperior = vestibular superior). O NC VIII percorre a cisterna do APC em íntima relação com o NC VII e a AICA.
Origem real: gânglio espiral (coclear) e gânglio de Scarpa (vestibular).
Origem aparente: sulco bulbopontino (lateral ao NC VII).
Forame de saída: MAI (poro acústico interno).

Função: Sensitiva especial exclusiva: audição (raiz coclear — frequências de 20–20.000 Hz com maior sensibilidade em 1.000–4.000 Hz) e equilíbrio/propriocepção vestibular (raiz vestibular — detecta aceleração linear via máculas do utrículo/sáculo e aceleração angular via cúpulas dos canais semicirculares). Patologias: schwannoma vestibular (tumor do APC mais frequente — 80–90%, originado da bainha de mielina do nervo vestibular superior no segmento cisternal/intracanalicular), neurite vestibular, labirintite, surdez neurossensorial súbita (SSHL).

NC IX — Nervo Glossofaríngeo

Nervo misto com múltiplos componentes que emerge em múltiplas radículas do sulco lateral posterior do bulbo, acima do NC X, e atravessa o forame jugular no compartimento nervoso (pars nervosa), separado do NC X/XI pelo septo fibroso intrajugular.
Possui dois gânglios: superior (intrajugular — sensitivo somático) e inferior (petroso — sensitivo visceral e gustativo). O nervo de Hering (ramo do seio carotídeo) é clinicamente relevante — inerva o seio carotídeo (barorreceptor) e o corpo carotídeo (quimiorreceptor). A corda timpânica percorre o osso petroso até o ouvido médio (plexo timpânico de Jacobson) e sai como nervo petroso menor para o gânglio ótico (parassimpático da parótida).
Origem real: núcleo ambíguo (motor), núcleo salivatório inferior (parassimpático), núcleo do trato solitário (sensitivo visceral/gustativo), núcleo espinhal do V (sensitivo geral).
Origem aparente: sulco posterolateral do bulbo (acima do NC X).
Forame de saída: forame jugular (compartimento nervoso/pars nervosa).

Função: Motor: músculo estilofaríngeo (elevação da faringe na deglutição). Parassimpático: glândula parótida (via nervo petroso menor → gânglio ótico → nervo auriculotemporal [V3]). Sensitiva geral: faringe posterior, terço posterior da língua, amígdala, palato mole, tuba auditiva, ouvido médio. Sensitiva especial (gustativa): paladar no terço posterior da língua. Barorreceptores (seio carotídeo) e quimiorreceptores (corpo carotídeo). Síndrome de vernet (forame jugular): paralisia ipsilateral de NC IX, X e XI.

NC X — Nervo Vago

O nervo craniano com maior distribuição periférica, responsável pela inervação parassimpática de vísceras torácicas e abdominais até o ângulo esplênico do cólon. Emerge em múltiplas radículas do sulco posterolateral do bulbo, abaixo do NC IX, atravessa o forame jugular (compartimento vascular — junto com o NC XI e a veia jugular interna), e possui dois gânglios: superior (jugular — sensitivo somático, na parede do forame) e inferior (nodoso — sensitivo visceral, abaixo do forame). Após o gânglio nodoso, divide-se em ramos: faríngeo (faringe e palato mole — junto com NC IX), laríngeo superior (mucosa supraglótica e músculo cricotireóideo), laríngeo recorrente (todos os músculos intrínsecos da laringe exceto cricotireóideo, mucosa subglótica), ramos cardíacos, broncopulmonares, esofágicos e gástricos. O nervo laríngeo recorrente esquerdo contorna o arco aórtico — sítio de vulnerabilidade a neoplasias mediastinais e aneurismas aórticos.
Origem real: núcleo ambíguo (motor), núcleo motor dorsal do vago (parassimpático), núcleo do trato solitário (sensitivo visceral), núcleo espinhal do V (sensitivo geral).
Origem aparente: sulco posterolateral do bulbo.
Forame de saída: forame jugular (compartimento vascular).

Função: Motor: músculos do palato mole (exceto tensor), faringe (exceto estilofaríngeo), laringe (via nervos laríngeos). Parassimpático: coração (bradicardia, redução da condutividade AV), pulmões (broncoconstrição, aumento de secreções), esôfago, estômago, intestino delgado, cólon até ângulo esplênico (peristaltismo, secreções glandulares). Sensitiva geral: dura-máter da fossa posterior, pavilhão auricular (ramo auricular — nervo de Arnold — reflexo vasovagal por estimulação do MAE). Sensitiva visceral: vísceras torácicas e abdominais (nocicepção visceral). Paralisia do vago: rouquidão (paralisia de prega vocal), disfagia, aspiração, taquicardia reflexa, íleo paralítico.

NC XI — Nervo Acessório (Espinhal)

O único nervo craniano com origem tanto no bulbo (raiz cranial) quanto na medula espinhal cervical (raiz espinhal). A raiz espinhal origina-se dos cornos anterolaterais de C1–C5/C6, sobe pelo forame magno dentro do canal espinhal, junta-se à raiz cranial no forame jugular e depois se separa novamente: a raiz cranial une-se ao NC X (ramo interno — músculos laríngeos via nervo laríngeo recorrente); a raiz espinhal (ramo externo — NC XI propriamente) desce pelo pescoço lateral, perfura o músculo esternocleidomastoideo (ECM) e atinge o músculo trapézio. Atravessa o forame jugular no compartimento vascular (junto com NC X e veia jugular interna).
Origem real: núcleo ambíguo (raiz cranial) e neurônios motores anteriores de C1–C5 (raiz espinhal).
Origem aparente: sulco posterolateral do bulbo (raiz cranial) e raízes de C1–C5 (raiz espinhal).
Forame de saída: forame jugular (compartimento vascular) → forame magno.

Função: Motor somático exclusivo: esternocleidomastoideo (rotação da cabeça para o lado contralateral e flexão ipsilateral) e trapézio (elevação do ombro, retração e rotação da escápula). A raiz cranial contribui para inervação dos músculos laríngeos via NC X. Lesão do NC XI: queda do ombro ipsilateral, incapacidade de elevar o ombro acima de 90°, desvio da escápula ('scapula winging' por paralisia do trapézio), dificuldade para girar a cabeça contra resistência para o lado contralateral.

NC XII — Nervo Hipoglosso

Nervo motor puro, origina-se em múltiplas radículas do sulco anterolateral do bulbo (entre a oliva bulbar e a pirâmide), atravessa o espaço subaracnóideo da cisterna pré-medular, atravessa o canal hipoglosso (forame hipoglosso — na porção medial do côndilo occipital), percorre o espaço retrofaríngeo lateral e espaço parafaríngeo, contornando o ângulo da mandíbula abaixo do NC IX e X, antes de inervar toda a musculatura intrínseca e extrínseca ipsilateral da língua (exceto o palatoglosso — NC X). A artéria faríngea ascendente (ramo da artéria carótida externa) acompanha o nervo no canal.
Origem real: núcleo hipoglosso (coluna cinzenta anterior do bulbo, adjacente ao assoalho do quarto ventrículo — trígono do hipoglosso).
Origem aparente: sulco anterolateral do bulbo (entre pirâmide e oliva).
Forame de saída: canal hipoglosso.

Função: Motor somático exclusivo: toda a musculatura da língua (genioglosso, hioglosso, estiloglosso — músculos extrínsecos; longitudinal superior e inferior, transverso e vertical — músculos intrínsecos). Paralisia periférica do NC XII: protrusão da língua desvia PARA O LADO LESADO (o genioglosso contralateral empurra a língua para o lado paralisado). Atrofia e fasciculações ipsilaterais visíveis na paralisia periférica. Paralisia central (piramidal): sem atrofia, desvio lingual contralateral à lesão. Lesão nuclear bilateral (ELA): atrofia severa, fasciculações e anartria — síndrome bulbar.

Tomografia

A tomografia computadorizada tem papel complementar e específico na avaliação dos nervos cranianos, com foco principal na caracterização óssea dos forames e canais por onde os nervos transitam [1,5]. A TC de alta resolução em janela óssea (HRCT — High Resolution CT) com reconstruções multiplanares (MPR) e reconstruções em volume (VRT) dos ossos da base do crânio é o método de referência para avaliação do canal óptico, fissura orbitária superior, forame redondo, forame oval, forame espinhoso, forame jugular, canal hipoglosso, canal facial e MAI [5]. O alargamento ou erosão de um forame é sinal altamente específico de lesão expansiva (schwannoma, meningioma, paraganglioma, infiltração neoplásica). A TC com contraste tem papel secundário na avaliação do componente de partes moles, sendo superada pela RM com gadolínio [2].

  • Canal óptico: diâmetro normal 4–7 mm em adultos — alargamento unilateral sugere meningioma da bainha do nervo óptico, glioma óptico ou displasia fibrosa; constrição em osso denso sugere doença de Paget ou displasia fibrosa esclerótica [5]
  • MAI e aqueduto de Falópio: HRCT do osso temporal em cortes de 0,3–0,5 mm — identificar alargamento do MAI (>8 mm) em schwannoma vestibular, erosão do canal de Falópio (colesteatoma ou tumor glomus), e calibre do canal singular (habitualmente 1 mm) [3,5]
  • Forame oval (NC V3): avaliação em corte axial e coronal — alargamento assimétrico pode indicar schwannoma do trigêmeo, carcinoma perineural (adenoide cístico, carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço), ou paraganglioma [1,5]
  • TC com contraste de seio cavernoso e base do crânio: útil em lesões expansivas infiltrativas — meningioma (hiperostose óssea + massa realçante), cordoma do clivo (lesão expansiva destrutiva com calcificações), paraganglioma jugulotimpânico (erosão do forame jugular — 'sinal do pimenta e sal' perda da lamina dura do bulbo jugular) [2,5]

Ressonância Magnética

A RM de alta resolução é o método padrão-ouro para avaliação dos nervos cranianos, permitindo visualização direta do trajeto cisternal, intracanalicular e dos segmentos foraminal e extracraniano na grande maioria dos pares [2,3]. As sequências CISS (Constructive Interference in Steady State — Siemens), FIESTA (Fast Imaging Employing Steady-state Acquisition — GE) e DRIVE (Driven Equilibrium — Philips) são sequências T2 fortemente pesadas com isotropia de voxel (tipicamente 0,4–0,8 mm³), que produzem hipersinal intenso do LCR nas cisternas basilares enquanto os nervos aparecem como estruturas hipointensas lineares ou cilíndricas de alto contraste — permitindo resolução espacial suficiente para individualizar os nervos no MAI, na cisterna do APC e na cisterna pontocerebelar [3,4]. Sequências 3D TOF-MRA (Time of Flight) permitem avaliação simultânea das relações neurovasculares (conflitos entre artérias e a raiz nervosa — especialmente na neuralgia do trigêmeo e hemispasmo facial). A RM com gadolínio (T1 com supressão de gordura em alta resolução) é essencial para avaliação de schwannomas, meningiomas, neurites e infiltração perineural de neoplasias (carcinomas de cabeça e pescoço) [1,2].

  • Sequências CISS/FIESTA 3D isotrópicas (0,5 mm³): nervos aparecem como estruturas hipointensas cilíndricas ou ovóides em fundo de hipersinal homogêneo do LCR — padrão de alta resolução para individualização de NC IV (mais delgado), NC VI e raízes do NC VIII no MAI [3,4]
  • MAI e fundo do MAI (fundus): NC VII ocupa o quadrante anterossuperior do MAI; NC VIII divide-se em coclear (anteroinferior), vestibular superior (posterossuperior) e vestibular inferior (posteroinferior) — a crista falciforme (osseo) e a barra transversa dividem os quatro compartimentos visíveis em cortes coronais de alta resolução do MAI [3]
  • Conflito neurovascular: contato direto entre alça arterial (SCA para NC V, AICA para NC VII/VIII, PICA para NC IX/X) e a zona de entrada da raiz (REZ) nas sequências CISS e TOF-MRA fusionadas — afilamento ou desvio do nervo no ponto de contato distingue compressão de simples contato [4]
  • T1 pós-gadolínio com supressão de gordura: realce focal do nervo indica inflamação ativa (neurite viral — NC VII na síndrome de Ramsay-Hunt), lesão desmielinizante, schwannoma intracanalicular (massa ovóide realçante que expande o MAI — 'sinal do sorvete em cones') ou infiltração perineural (nervo espessado e realçante ao longo do forame) [1,2]
  • DWI: schwannomas raramente restringem; meningiomas mostram restrição moderada — auxilia no diagnóstico diferencial de lesões do APC; abscesso epidural com acometimento do NC VI no Canal de Dorello apresenta restrição intensa [2]
  • Sequências de cine-RM do LCR (phase-contrast): avaliação indireta do fluxo liquórico no aqueduto e nas cisternas basais em hidrocefalia com possível compressão de nervos cranianos baixos [1]
  • Neuralgia do Trigêmeo Clássica (NTc — Dor Facial Paroxística): conflito neurovascular entre a SCA (75–80%), AICA ou ramos venosos e a REZ do NC V na cisterna pontocerebelar. Na RM CISS+TOF fusionadas, identificar contato vascular com afilamento, desvio ou distorção do nervo — diferente de simples contato sem distorção (variante normal).
    Relevância cirúrgica: MVD (Microvascular Decompression — Cirurgia de Jannetta) com taxa de cura >85% em NTc com conflito confirmado [4]
  • Hemispasmo Facial: contrações involuntárias ipsilaterais dos músculos faciais por conflito neurovascular (AICA, PICA, artéria vertebral) na REZ do NC VII no sulco bulbopontino. RM CISS 3D + TOF com fusão documenta o vaso causador — fundamental para planejamento de MVD [4]
  • Paralisia de Bell e Síndrome de Ramsay-Hunt: paralisia facial periférica aguda — Bell's palsy (idiopática, provavelmente viral — HSV-1) vs. Ramsay-Hunt (VZV — vesículas no conduto auditivo externo e palato). Na RM com gadolínio, realce do NC VII no segmento intracanalicular e no gânglio geniculado em fase aguda — não indicativo de neoplasia nesse contexto [2,3]
  • Schwannoma Vestibular (Neurinoma do Acústico): tumor benigno (OMS I) mais frequente do APC (~85% das massas do APC).
    RM T1 pós-Gd: massa ovóide iso a hipointensa em T1, hipersinal T2, realce heterogêneo com componente cístico em tumores maiores. 'Sinal do sorvete em cone de waffle' — massa centrando no poro acústico com componente cisternal e intracanalicular. Classificação de Koos orienta o tratamento [1,2]
  • Infiltração Perineural Neoplásica: carcinoma adenoide cístico, carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço e linfoma infiltram nervos perineuralmente com progressão retrógrada ao SNC.
    RM com gadolínio T1 fat-sat: espessamento e realce de ramos dos NC V (forame oval, forame redondo) e NC VII — fundamental rastrear todo o trajeto do nervo até o tronco encefálico em pacientes com histórico de neoplasia de cabeça e pescoço [1,5]
  • Oftalmoplegia Dolorosa Aguda — Diagnóstico Diferencial do Seio Cavernoso: paralisia de NC III, IV, V1, V2 e VI com dor orbitária e retro-orbitária = síndrome do seio cavernoso.
    Diagnósticos: trombose séptica do seio cavernoso (urgência), fístula carotídeo-cavernosa (exoftalmia pulsátil, sopro), meningioma cavernoso, linfoma, metástase, granulomatose (síndrome de Tolosa-Hunt — diagnóstico de exclusão) [1,2]
  1. 1O NC VI tem o trajeto intracraniano mais longo após a emergência, tornando-o vulnerável a múltiplos sítios de compressão: cisterna prépontina (artéria basilar, clivus), Canal de Dorello (hipertensão intracraniana — paralisia de 'falsa localização'), seio cavernoso (trombose, fístula carotídeo-cavernosa, tumor). Na suspeita de lesão do NC VI, o rastreamento radiológico DEVE cobrir todo esse trajeto — do sulco bulbopontino ao vértice orbitário.
  2. 2A sequência de eleição para visualização direta dos nervos nas cisternas basais é a CISS 3D (Siemens) / FIESTA (GE) / DRIVE (Philips) com voxel isotropico de 0,4–0,8 mm³ — estas sequências permitem reconstruções multiplanares obliqueadas ao longo do eixo de cada nervo e são superiores às sequências SE convencionais para o MAI, a cisterna do APC e a cisterna pontocerebelar.
  3. 3Na investigação de neuralgia do trigêmeo clássica, a fusão de imagens CISS 3D + TOF-MRA 3D é a técnica mais fidedigna para identificar o vaso causador e documentar compressão da REZ — o laudo deve especificar: qual vaso (artéria vs. veia), qual lado da REZ (superior, anterior, posterior), e se há distorção/afilamento do nervo (compressão) ou apenas contato sem distorção (variante normal em até 35% dos assintomáticos).
  4. 4Todo paciente com paralisia facial periférica aguda deve ter a mastoidite coalescente e o colesteatoma excluídos pela TC do osso temporal antes de atribuir o quadro à paralisia de Bell ou Ramsay-Hunt — mastoidite com paralisia facial é emergência cirúrgica com drenagem mastóidea obrigatória.
  5. 5A perda sensorial na face em distribuição do NC V (especialmente V2 e V3) em paciente com histórico de carcinoma de parótida, CEC oral ou carcinoma adenoide cístico OBRIGA RM com gadolínio e fat-sat avaliando o trajeto completo dos forames redondo e oval até o gânglio trigeminal e a ponte — infiltração perineural assintomática tem implicação prognóstica e terapêutica crítica.
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3DModelo 3D Interativo dos Nervos Cranianos. Navegue, amplie e gire para visualizar as origens aparentes no tronco encefálico.