Cavidades Ventriculares e Dinâmica do LCR
Sistema de cavidades ependimais no interior do encéfalo responsável pela produção, circulação e via de drenagem do Líquido Cefalorraquidiano.
Sistema de cavidades ependimais interconectadas localizadas no interior do encéfalo, compreendendo dois ventrículos laterais (um em cada hemisfério cerebral), o terceiro ventrículo (linha média diencefálica) e o quarto ventrículo (entre o tronco encefálico e o cerebelo) [1,2]. As cavidades comunicam-se sequencialmente pelos forames interventriculares de Monro (ventrículos laterais → terceiro ventrículo), pelo aqueduto cerebral de Sylvius (terceiro → quarto ventrículo) e pelas aberturas do quarto ventrículo: laterais de Luschka (2) e mediana de Magendie (1), que drenam ao espaço subaracnóideo e às cisternas basais [1,3]. O líquido cefalorraquidiano (LCR) é produzido pelo plexo coroide (70–80%) e pelo epêndima (20–30%), circula crânio-caudalmente pelos ventrículos e é reabsorvido principalmente pelas granulações aracnóideas de Pacchioni nos seios venosos durais [1,4]. A produção total de LCR é de ~500 mL/dia; o volume total intracraniano de LCR é de ~150 mL (25% ventricular, 75% subaracnóideo) [1].
Dimensões: Índice de Evans (IE): diâmetro máximo dos cornos frontais / diâmetro biparietal interno ≤ 0,30 [1,5].
—Terceiro ventrículo: largura máxima ≤ 7 mm em adultos jovens; 7–10 mm pode ser normal acima dos 70 anos [1].
—Aqueduto de Sylvius: diâmetro ~1,5–2,0 mm na RM [3,6].
—Quarto ventrículo: diâmetro AP ≤ 15 mm, transverso ≤ 30 mm [1].
—Corno temporal: normalmente ≤ 2 mm (quase colabado); > 2–3 mm sugere hidrocefalia ativa ou atrofia hipocampal [1,5].
—Forames de Monro: ~3–5 mm.
Ventrículo lateral — Corno frontal (anterior)
Porção anterior do ventrículo lateral, delimitada pelo joelho e pela face anterior do corpo caloso (teto e parede anterior), pela cabeça do núcleo caudado (parede lateral) e pelo septo pelúcido (parede medial) [1,2]. Termina posteriormente no forame de Monro. É a porção mais avaliada na TC axial para cálculo do índice de Evans — o corte em que os cornos frontais são mais largos é o corte de referência [5]. Abaulamento convexo da parede lateral ('ballooning') dos cornos frontais é sinal de hidrocefalia ativa [1].
Função: Reservatório do LCR na porção frontal; comunica-se com o corpo ventricular e drena ao terceiro ventrículo via forame de Monro. Compressão unilateral por lesão adjacente (meningioma falcino, glioma frontal) causa hidrocefalia unilateral.
Ventrículo lateral — Corpo ventricular
Porção central e horizontal do ventrículo lateral, entre o forame de Monro anteriormente e o átrio (trígono) posteriormente [1,2]. O núcleo caudado (corpo) forma o assoalho lateral; o septo pelúcido é a parede medial; o corpo do corpo caloso constitui o teto. O plexo coroide percorre a tela coroideia ao longo da borda medial do corpo e estende-se ao átrio — é a principal fonte de produção de LCR dos ventrículos laterais [1].
Função: Porção de trânsito principal do LCR; contém o plexo coroide mais extenso dos ventrículos laterais.
Ventrículo lateral — Átrio (trígono ventricular)
Ponto de confluência dos cornos posterior e inferior com o corpo ventricular, ao nível do esplênio do corpo caloso [1,2]. O plexo coroide é mais proeminente nesta região (glomo do plexo coroide), frequentemente calcificado em adultos a partir da 3ª–4ª décadas [1]. É o sítio mais frequente de ependimomas no adulto e de papilomas do plexo coroide na criança (<2 anos) [1]. O fórceps maior do corpo caloso forma a parede posterolateral.
Função: Ponto de bifurcação ventricular em cornos posterior e inferior; calcificações do glomo são variantes normais comuns. Localização preferencial de papilomas do plexo coroide em crianças.
Ventrículo lateral — Corno occipital (posterior)
Extensão posterior do ventrículo lateral, variável em tamanho e frequentemente assimétrica [1,2]. O fórceps maior do corpo caloso forma seu teto e parede lateral; as fibras do trato geniculocalcarino (radiações ópticas de Gratiolet) situam-se na parede lateral. A proeminência do corno occipital é uma variante normal extremamente comum (colpocefalia fisiológica) [1].
Função: Compartimento de menor importância funcional. Assimetria frequente, mais proeminente à esquerda em indivíduos destros — variante normal. Corno occipital é o sítio menos confiável para avaliar hidrocefalia.
Ventrículo lateral — Corno temporal (inferior)
Extensão inferior do ventrículo lateral, curvando-se anteriormente e inferiormente no lobo temporal [1,2]. O hipocampo e a fimbria do fórnice formam o assoalho medial; a amígdala é adjacente ao extremo anterior. Normalmente quase colabado (≤ 2 mm) [1,5]. A cauda do núcleo caudado e o tálamo contribuem para a parede lateral.
Função: Expansão precoce (>3 mm) é sinal sensível de hidrocefalia obstrutiva. Em Doença de Alzheimer, a dilatação do corno temporal reflete atrofia hipocampal — contexto diferente da hidrocefalia. O plexo coroide estende-se ao corno temporal pela fissura coroideia.
Forame interventricular de Monro
Canal bilateral de ~3–5 mm que une cada ventrículo lateral ao terceiro ventrículo, delimitado anteriormente pelas colunas do fórnice e posteriormente pelo polo anterior do tálamo [1,2]. O plexo coroide de ambos os ventrículos laterais converge e continua pelo forame ao teto do terceiro ventrículo [1]. Em RM sagital e coronal, é identificável como estreitamento entre o corno frontal e o terceiro ventrículo.
Função: Ponto de drenagem do LCR dos ventrículos laterais ao terceiro ventrículo. Obstrução unilateral (cisto colóide, subependimoma, glioma hipotalâmico) causa hidrocefalia assimétrica com dilatação do ventrículo lateral ipsilateral; obstrução bilateral causa hidrocefalia biventricular com quarto ventrículo preservado.
Terceiro ventrículo
Cavidade laminar mediana entre os tálamos (paredes laterais), o hipotálamo e o assoalho (infundíbulo hipofisário, quiasma óptico, corpos mamilares) e o teto diencefálico (plexo coroide do teto, glândula pineal) [1,2]. Em ~70–80% dos indivíduos, a massa intermédia (adhesio interthalamica) atravessa a cavidade conectando os tálamos [2].
—Recessos anatômicos importantes: recesso óptico (anterior ao quiasma), recesso infundibular (adentrando o infundíbulo), recesso suprapineal e recesso pineal [1,3].
—Largura axial normal: ≤ 7 mm [1].
Função: Câmara de trânsito entre os ventrículos laterais (via Monro) e o quarto ventrículo (via aqueduto). Teto (tela coroideia do terceiro ventrículo com plexo coroide) contribui para produção de LCR. Paredes hipotalâmicas e talâmicas são críticas para endocrinologia e processamento sensorial.
Aqueduto cerebral de Sylvius
Canal estreito (~1,5–2,0 mm de diâmetro e ~15 mm de comprimento) que conecta o terceiro ao quarto ventrículo, percorrendo dorsalmente ao tegmento e ventralmente ao teto mesencefálico (lâmina quadrigeminal) [1,2,3]. Ponto de maior resistência ao fluxo do LCR no sistema ventricular. Na RM-CINE (phase-contrast), o fluxo pulsátil do LCR pelo aqueduto é visível como alternância de hipossinal crânio-caudal em sístole e sinal aumentado caudocrânio em diástole [6]. Volume de deslocamento (stroke volume) normal: ~30–60 µL/batimento.
Função: Único canal de comunicação entre terceiro e quarto ventrículo. Obstrução (congênita — estenose do aqueduto por stenose membranosa; adquirida — glioma periaquedutal, neurocisticercose, ventriculite) causa hidrocefalia triventricular: dilatação dos ventrículos laterais e terceiro com quarto ventrículo colabado ou normal.
Quarto ventrículo
Cavidade losângica (rombóide) na fossa posterior, entre o tronco encefálico ventralmente (pons e bulbo) e o cerebelo dorsalmente. O assoalho (fossa rombóide) contém colículos faciais, trígonos do hipoglosso e do vago [1,2,3]. O teto é formado pela vérmis cerebelar superior (lobo central, cúlmen) e inferior (folha, tonsila), pelos véus medulares superior e inferior. O fastigium é o ápice superior do quarto ventrículo, identificável na RM sagital. Drena ao espaço subaracnóideo pelas aberturas de Luschka (dois, laterais → cisternas do ângulo ponto-cerebelar) e de Magendie (uma, mediana → cisterna magna) [1,3].
Função: Câmara terminal da circulação ventricular; ponto de distribuição do LCR ao espaço subaracnóideo. Compressão por tumores da fossa posterior (meduloblastoma, ependimoma, hemangioblastoma) causa hidrocefalia obstrutiva com dilatação de todo o sistema suprajacente.
A TC é frequentemente o primeiro método de imagem na urgência para avaliação do sistema ventricular, especialmente em suspeita de hidrocefalia aguda, hemorragia intraventricular (HIV), trauma cranioencefálico (TCE) e derivações ventriculares [1,5]. O LCR é hipodenso (0–15 UH) em relação ao parênquima cerebral (35–45 UH), permitindo avaliação rápida dos contornos ventriculares, presença de sangue (hiperdenso, >50 UH), calcificações do plexo coroide e posição de cateter de derivação [1].
A RM é o método de eleição para avaliação morfológica e funcional do sistema ventricular [1]. Em sequências T1, o LCR aparece hipointenso; em T2 hiperintenso; em FLAIR é suprimido (hipointenso) — tornando o FLAIR a sequência ideal para detectar hipersinal periventricular (transudato em hidrocefalia ativa, leucoaraiose, ependimite) [1,5]. A RM-CINE (phase-contrast velocity-encoding) avalia o fluxo pulsátil do LCR pelo aqueduto, diferencia hidrocefalia comunicante de obstrutiva e identifica candidatos à ventriculostomia endoscópica do terceiro ventrículo (VETe) [6]. Sequências 3D T2 (SPACE/CUBE/VISTA) permitem reconstruções multiplanares de alta resolução para avaliação do aqueduto e dos forames de Monro.
3D — Modelo 3D Interativo do Sistema Ventricular do Cérebro — Rotacione e explore a anatomia das cavidades ventriculares.