Também conhecida como: Embolia Pulmonar, Pulmonary Embolism (PE), Embolia Pulmonar Aguda, TEP Maciço / Submaciço / Não Maciço, Pulmonary Thromboembolism
O tromboembolismo pulmonar (TEP) é definido como a obstrução aguda, parcial ou total, de um ou mais ramos da artéria pulmonar por material trombótico, mais frequentemente originado do sistema venoso profundo dos membros inferiores (tríade de Virchow: estase, hipercoagulabilidade e lesão endotelial) [1,2]. Constitui a terceira causa de morte cardiovascular nos países ocidentais, com mortalidade hospitalar que varia de <1% nos casos de baixo risco a >50% nos episódios de choque cardiogênico não tratados [1,3]. A apresentação clínica é notoriamente inespecífica — dispneia súbita, taquicardia, hipoxemia e dor pleurítica são os achados mais comuns, porém ausentes em parte dos casos — justificando o papel central da imagem no diagnóstico [2]. O padrão-ouro diagnóstico atual é a angiotomografia computadorizada pulmonar (angioTC), com sensibilidade de 83–100% e especificidade de 89–98% para TEP de artérias segmentares e supra-segmentares [2,4]. A estratificação de risco pela escala de Wells (clínica) e pelo escore PESI (Pulmonary Embolism Severity Index) integrada aos achados de imagem (sobrecarga do ventrículo direito) e biomarcadores (troponina, BNP) orienta o estadiamento em TEP de alto, intermediário e baixo risco, com profundo impacto na decisão terapêutica [1,3]. O tratamento vai desde anticoagulação sistêmica isolada em pacientes de baixo risco até trombólise ou embolectomia cirúrgica de emergência nos casos de comprometimento hemodinâmico [3].
A fisiopatologia do TEP é multifatorial e diretamente dependente do volume de leito vascular ocluído, da reserva cardiopulmonar prévia do paciente e da presença de vasoconstrição reflexa [1,2]. (1) Obstrução mecânica: o trombo impacta na bifurcação das artérias pulmonares ou em seus ramos segmentares e subsegmentares, determinando aumento abrupto da resistência vascular pulmonar (RVP). A oclusão de mais de 30–50% do leito arterial pulmonar em pacientes previamente hígidos já é capaz de gerar hipertensão pulmonar aguda e sobrecarga do ventrículo direito (VD) [1,3]. (2) Vasoconstrição reflexa e humoral: a hipoxemia alveolar e a liberação de serotonina, histamina e tromboxano A₂ pelos agregados plaquetários amplificam a vasoconstrição pulmonar, aumentando a RVP além do componente obstrutivo mecânico puro [2]. (3) Sobrecarga aguda do VD (cor pulmonale agudo): o VD, câmara de baixa pressão, não tolera aumentos abruptos de pós-carga — dilata-se, devindo a septo interventricular para a esquerda ('D-sign' ou 'McConnell sign'), reduzindo o enchimento do ventrículo esquerdo (VE) e precipitando hipotensão sistêmica e choque [1,3]. (4) Infarto pulmonar: ocorre em apenas 10–15% dos TEPs, predominantemente quando há comprometimento de artérias subsegmentares periféricas em pacientes com circulação bronquial insuficiente (ICC, DPOC grave) — manifesta-se como opacidade em cunha pleural com base periférica (infarto de Hampton) [2,5]. O TEP central maciço provoca colapso circulatório antes do infarto; o TEP periférico pequeno provoca infarto sem colapso [1].
O TEP é a manifestação mais grave do espectro do tromboembolismo venoso (TEV), juntamente com a trombose venosa profunda (TVP) [1,3]. A incidência anual nos países ocidentais é estimada em 60–70 por 100.000 habitantes, com aproximadamente 300.000 novos casos/ano nos EUA e 300.000 mortes relacionadas ao TEV anuais na Europa [1,3]. Acomete ambos os sexos de forma relativamente equânime, com leve predominância masculina nas faixas etárias mais jovens e feminina na pós-menopausa (influência dos estrógenos exógenos e gestação) [1,2]. A incidência aumenta exponencialmente com a idade — rara antes dos 20 anos, com duplicação do risco a cada década após os 50 anos [3].
—Principais fatores de risco: imobilização prolongada, cirurgia ortopédica de grande porte (artroplastia de joelho e quadril — risco cumulativo de até 50% sem profilaxia), neoplasia maligna ativa (risco 4–6× maior), uso de contraceptivos orais combinados, gestação e puerpério, trombofilias hereditárias (Fator V de Leiden, mutação da protrombina G20210A, deficiência de proteínas C e S), obesidade (IMC >30) e TEV prévio [1,3].
A angiotomografia computadorizada pulmonar (angioTC ou CTPA — Computed Tomography Pulmonary Angiography) é o exame padrão-ouro para diagnóstico de TEP na prática clínica contemporânea, substituindo a cintilografia ventilação-perfusão (V/Q) como método de primeira linha em pacientes sem contraindicação ao contraste iodado [2,4]. O protocolo ideal utiliza injeção de contraste iodado (60–80 mL, concentração ≥350 mgI/mL, fluxo 4–5 mL/s) com técnica de bolus tracking — threshold na artéria pulmonar principal de 100–150 UH para disparo da aquisição — garantindo opacificação ótima do leito arterial pulmonar [4,6]. A aquisição helicoidal com colimação de 0,5–0,625 mm isotropic e gantry time <0,5 s minimiza artefatos de pulsação e de movimento respiratório. Reformatações multiplanares (MPR) sagitais, coronais e oblíquas ao longo do eixo vascular são essenciais para a avaliação de vasos segmentares e subsegmentares [4]. A angioTC permite simultaneamente o diagnóstico de TEP, a avaliação de sobrecarga do VD, a detecção de fontes tromboembólicas (TVP pélvica na fase venosa tardia) e o diagnóstico de condições alternativas [2,4,6].
Sinais Patognomônicos / Chave
A angiorressonância magnética pulmonar (angioRM) tem papel limitado na prática clínica de urgência para TEP, principalmente pela menor disponibilidade, maior tempo de aquisição, exigência de cooperação respiratória e sensibilidade inferior para vasos subsegmentares [2,7]. No entanto, representa alternativa válida em pacientes com contraindicações absolutas ao contraste iodado (alergia grave documentada, disfunção renal severa com TFG <30 mL/min/m²) ou em mulheres grávidas (sem gadolínio), onde a exposição à radiação deve ser minimizada [2,7]. O protocolo inclui sequências 3D time-resolved MRA com gadolínio (TWIST, TRICKS), sequências de fluxo (phase-contrast) e sequências morfológicas T1 e T2 para avaliação do parênquima pulmonar e do mediastino. A sensibilidade da angioRM para TEP de artérias segmentares varia de 77–90% com especificidade de 95–98% em centros experientes [7].
Sinais Patognomônicos / Chave
A radiografia simples de tórax (PA e perfil) raramente é diagnóstica de TEP, porém é indispensável na avaliação inicial por excluir diagnósticos alternativos (pneumotórax, pneumonia, edema pulmonar) e por revelar sinais indiretos de TEP — todos inespecíficos quando analisados isoladamente, mas de alto valor semiótico quando combinados em contexto clínico adequado [2,5]. Estima-se que 12–24% dos pacientes com TEP confirmado apresentem radiografia de tórax completamente normal [5]. A combinação de oligoemia focal ('sinal de Westermark'), corcova pleural ('corcova de Hampton') e dilatação da artéria pulmonar ('sinal de Palla') em paciente com dispneia aguda e fator de risco tem alta especificidade para TEP quando presente [2,5].
Sinais Patognomônicos / Chave
Como diferenciar:A pneumonia lobar produz opacidade de consolidação com broncograma aéreo proeminente e distribuição lobar ou segmentar na radiografia e na TC — o broncograma aéreo dinâmico (ar nos brônquios dentro da consolidação) é AUSENTE no infarto pulmonar por TEP, onde a opacidade em cunha é sólida e avascular [2,5]. Na angioTC, a pneumonia NÃO produz defeito de enchimento arterial pulmonar — as artérias segmentares estão pérvias (vasos dentro da consolidação, 'air space disease'); o TEP mostra o filling defect intraluminal hipodense na artéria correspondente ao território da opacidade. Laboratorialmente, leucocitose, neutrofilia, proteína C reativa elevada e escarro purulento favorecem pneumonia; D-dímero é inespecífico e pode elevar-se em ambos [1,2].
Como diferenciar:A dissecção aórtica tipo A pode estender-se ao tronco pulmonar em casos raros, simulando TEP central [6]. Na angioTC, a dissecção apresenta flap intimal hipodense dividindo o lúmen aórtico em duas luzes (verdadeira e falsa), com origem na raiz aórtica ou aorta ascendente — achado AUSENTE no TEP. O TEP mostra defeito de enchimento confinado ao lúmen único das artérias pulmonares, sem flap intimal. A janela mediastinal deve avaliar sempre a aorta completa em paciente com dor torácica para não perder dissecção aórtica concomitante [6]. Clinicamente, a dor do tipo 'rasgante' irradiada para as costas, assimetria de pressão arterial nos membros e sopro aórtico apontam para dissecção.
Como diferenciar:O trombo tumoral (tumor thrombus) de carcinoma pulmonar central ou de metástases (carcinoma renal, hepatocarcinoma) pode mimetizar TEP na angioTC por produzir defeito de enchimento intraluminal nas artérias pulmonares [6].
—A diferenciação baseia-se em: (1) o trombo tumoral REALÇA após contraste (vascular, com vasos nutrientes), enquanto o trombo fibrinoso do TEP é avascular e não realça; (2) o trombo tumoral frequentemente dilata o vaso ('expansive filling defect'), ao contrário do trombo trombótico que se ajusta ao contorno luminal; (3) massa primária adjacente ou conexão direta com massa mediastinal ou pulmonar visível na TC [2,6]. Na RM, o trombo tumoral exibe hipersinal T2 e restrição à difusão (ADC baixo por celularidade elevada) — o trombo trombótico em fase aguda tem ADC elevado [7].
Como diferenciar:Artefatos de pulsação cardíaca podem gerar hipodensidades lineares ou em banda nas artérias pulmonares centrais simulando trombos — ARMADILHA clássica na angioTC [4,6]. O pseudotrombo por pulsação é identificado pelos seguintes critérios: (1) distribuição linear e transversal ao eixo vascular (não segue o eixo do vaso como trombo verdadeiro); (2) hipodensidade presente apenas em um corte, sem continuidade nos cortes adjacentes; (3) localização preferencial na artéria pulmonar principal direita e no tronco pulmonar; (4) presença de outros artefatos de pulsação cardíaca no mesmo exame (movimento da aorta ascendente, borramento da raiz aórtica). O TEP verdadeiro tem defeito de enchimento que persiste em cortes consecutivos, segue o eixo do vaso e apresenta morfologia consistente (central, excêntrico ou oclusivo) [4,6].
Como diferenciar:Ocorre após trauma de ossos longos, cirurgia ortopédica ou pancreatite grave [2]. Na angioTC, a embolia gordurosa pode não produzir defeito de enchimento típico nas artérias pulmonares centrais (êmbolos de gordura são menores e periféricos); o padrão predominante é de opacidades em vidro fosco bilaterais difusas por capilarite ('síndrome de angústia respiratória') sem defeito luminal arterial central [2]. A Tríade de Gurd (hipoxemia, petéquias axilares/subconjuntivais e confusão mental) distingue embolia gordurosa do TEP trombótico. Na RM, droplets de gordura intrapulmonar podem exibir hipersinal em T1 — achado ausente no TEP trombótico [7].
Como diferenciar:Êmbolos sépticos originam-se de endocardite tricúspide ou de flebites supurativas (cateter venoso central infectado, tromboflebite séptica) [2]. Na angioTC pulmonar, os êmbolos sépticos produzem nódulos periféricos bilaterais, frequentemente cavitados (sinal do nódulo cavitado ou 'target sign' — cavidade central com halo de condensação), com distribuição predominantemente subpleural e basal — morfologia distinta do TEP trombótico central [2]. Bacteriemia, febre alta, leucocitose intensa, endocardite confirmada (ecocardiografia) e usuários de drogas injetáveis são o contexto clínico característico. O trombo séptico pode coexistir com TEP trombótico verdadeiro em pacientes com cateter venoso central com TVP associada [1].
Como diferenciar:A hipertensão pulmonar tromboembólica crônica (HPTEC) é sequela de TEPs repetidos não resolvidos, diferindo do TEP agudo por: (1) na angioTC, trombos crônicos são excêntricos, calcificados, aderidos à parede ('web sign' — banda de baixo sinal colada à parede arterial), frequentemente recanaizados parcialmente com contornos irregulares — distintos dos trombos agudos (centrais, suaves, sem calcificação) [1,2]; (2) sinais de hipertensão pulmonar crônica: dilatação do tronco pulmonar >29 mm, hipertrofia da parede do VD, colaterais bronquiais e pleurais proeminentes, oligoemia em mosaico crônica — todos mais pronunciados que no TEP agudo; (3) a cintilografia V/Q é mais sensível que a angioTC para HPTEC (detecta trombos organizados subsegmentares não visíveis na TC); (4) cateterismo pulmonar confirma HAP com PAPm >25 mmHg crônica [1,3].
Como diferenciar:O edema pulmonar cardiogênico produz opacidades bilaterais simétricas peribroncovasculares e perihilares ('asa de borboleta'), linhas B de Kerley (septos interlobulares espessados), redistribuição de fluxo cefálico e derrame pleural bilateral — padrão radicalmente distinto do TEP [2,5]. Na angioTC, as artérias pulmonares estão PÉRVIAS sem defeito de enchimento (ausência de filling defect); as opacidades são em vidro fosco bilaterais simétricas com espessamento dos septos interlobulares ('crazy paving' ou 'ground glass') e derrame pleural bilateral. A elevação de BNP/NT-proBNP muito acima do esperado, a cardiomegalia com redução da fração de ejeção do VE ao ecocardiograma e a resposta dramática ao diurético orientam para ICC [1,2]. No TEP, o VE está tipicamente normal ou de dimensão reduzida (por redução do enchimento diastólico)
O tratamento do TEP é baseado na estratificação de risco e nas diretrizes da ESC 2019 [1,3]. (1) TEP de Alto Risco (com choque/hipotensão): trombólise sistêmica com alteplase (tPA) 100 mg IV em 2 horas é a terapia de primeira linha — contraindicada em pacientes com AVC hemorrágico recente, cirurgia intracraniana recente ou sangramento ativo [3]. Embolectomia cirúrgica emergencial ou trombólise dirigida por cateter (CDT com ultrassom-assistida ou farmacológica) são alternativas em casos de contraindicação absoluta à trombólise sistêmica ou falha terapêutica [3]. Anticoagulação com heparina não fracionada (HNF) em infusão contínua intravenosa (bolus 80 UI/kg, depois 18 UI/kg/h com alvo de TTPA 60–100 s) deve ser iniciada imediatamente. (2) TEP de Risco Intermediário: anticoagulação parenteral com heparina de baixo peso molecular (HBPM — enoxaparina 1 mg/kg SC 12/12h) ou fondaparinux com transição para anticoagulante oral direto (DOAC — rivaroxabana, apixabana ou edoxabana) ou varfarina [3]. Monitorização intensiva de sinais de deterioração hemodinâmica com escalonamento terapêutico se necessário. (3) TEP de Baixo Risco (PESI I–II, sem disfunção do VD): tratamento ambulatorial com DOACs (rivaroxabana 15 mg 12/12h por 21 dias depois 20 mg/dia, ou apixabana 10 mg 12/12h por 7 dias depois 5 mg 12/12h) — taxas de mortalidade e sangramento similares à hospitalização em pacientes selecionados [1,3].
—Duração da anticoagulação: TEP com fator de risco transitório reversível: 3 meses; TEP idiopático primeiro episódio: 3–6 meses com reavaliação; TEP recorrente, SAF, neoplasia ativa ou trombofilias de alto risco: anticoagulação indefinida [3]. Filtro de veia cava inferior (FVCI): reservado a pacientes com contraindicação absoluta à anticoagulação, não como alternativa rotineira [3].
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Radiografia de tórax em projeção posteroanterior (PA) de paciente masculino, 58 anos, com dispneia aguda e hipoxemia. Identificar o sinal de Westermark no hemitórax direito: oligoemia focal da região do lobo inferior direito com rarefação dos vasos pulmonares regionais (seta branca), contrastando com a vascularização normal do hemitórax esquerdo. No hilo direito, dilatação da artéria pulmonar descendente direita (seta amarela, diâmetro estimado ~18 mm) — sinal de Palla, indicando hipertensão pulmonar aguda por sobrecarga do VD [2,5].
—No lobo inferior direito lateral: opacidade em cunha com base periférica e vértice apontando para o hilo ('corcova de Hampton', cabeça de seta) — representando infarto pulmonar hemorrágico por oclusão de artéria segmentar subsegmentar. Pequeno derrame pleural direito (opacidade no seio costofrênico direito). Silhueta cardíaca com discreto alargamento do arco médio direito (dilatação do VD). Achados em conjunto fortemente sugestivos de TEP submacio com infarto pulmonar — angioTC pulmonar indicada com urgência para confirmação e estadiamento [1,5].