Síndrome do Quebra-Nozes (Compressão da Veia Renal Esquerda)

Também conhecida como: Nutcracker Syndrome, Nutcracker Phenomenon, Síndrome da Pinça Aortomesentérica Venosa, Left renal vein entrapment syndrome, NCS

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A Síndrome do Quebra-Nozes (SNQ) é uma entidade clínico-radiológica resultante da compressão extrínseca da veia renal esquerda (VRE) entre a artéria aorta abdominal (AA) e a artéria mesentérica superior (AMS), determinando hipertensão venosa renal esquerda com consequentes hematúria, proteinúria, dor no flanco esquerdo e, em mulheres, síndrome de congestão pélvica por dilatação das veias gonadais [1,2]. A forma anatômica clássica — denominada Nutcracker Anterior — ocorre quando a VRE é comprimida no ângulo aortomesentérico, entre a face anterior da AA e a face posterior da AMS [1]. A forma posterior ou Nutcracker Posterior ocorre quando a VRE retroaórtica é comprimida entre a AA e a coluna vertebral, configuração anatômica presente em ~3% da população [3]. O diagnóstico definitivo integra critérios clínicos, ultrassonográficos (Doppler com razão de velocidade >4–5:1 entre o segmento comprimido e o hilar), angiotomográficos (ângulo aortomesentérico <35–41° e distância aortomesentérica <4–8 mm) e, nos casos duvidosos, flebografia com medição do gradiente de pressão venosa renal (>3 mmHg confirma obstrução hemodinamicamente significativa) [1,2,4]. O tratamento varia desde conduta expectante e conservadora em adolescentes e adultos jovens até stenting endovascular da VRE ou transposição cirúrgica veno-venosa em casos graves e refratários [5].

Fisiopatologia

A fisiopatologia da SNQ assenta em dois mecanismos principais e interdependentes que decorrem da compressão extrínseca da VRE [1,2,3]. (1) Hipertensão venosa renal esquerda: a VRE é o único canal de drenagem venosa do rim esquerdo na grande maioria dos indivíduos. Sua compressão no ângulo formado entre a AA (posteriormente) e a AMS (anteriormente) eleva a pressão hidrostática no segmento pré-compressivo (hilar e intrarenal), gerando hipertensão venosa do seio renal [1]. Normalmente, a pressão na VRE hilar é de 1–4 mmHg; na SNQ sintomática, pode ultrapassar 6–10 mmHg, com gradiente de pressão venorenal > 3 mmHg entre o segmento comprimido e a veia cava inferior (VCI) [4]. (2) Consequências da hipertensão venosa: o aumento da pressão nos vasos venosos intrarrenais rompe a barreira tubuloglomerular, permitindo extravasamento de eritrócitos para o espaço de Bowman e para os túbulos renais ('hematúria de esforço' ou persistente) [1,2]. A hipertensão venosa também dilata as veias do plexo peripélvico, criando varizes do seio renal que podem erosar a mucosa do sistema coletor — fonte de hematúria macrográfica episódica [2]. A transmissão da hipertensão retrogradamente às veias gonadais esquerdas causa dilatação das veias ovarianas ou espermáticas esquerdas, gerando síndrome de congestão pélvica (mulheres) ou varicocele esquerda (homens) [1,3]. O ângulo aortomesentérico crítico (<35°) e a distância aortomesentérica reduzida (<4–8 mm) refletem a diminuição da gordura retroperitoneal perivascular, frequentemente associada a biotipo leptossômico, rápido crescimento estatural na adolescência ou emagrecimento acentuado [1,2,4].

Epidemiologia

A SNQ é mais prevalente em adolescentes e adultos jovens, com pico de incidência entre 10 e 30 anos, embora possa manifestar-se em qualquer faixa etária [1,2]. A distribuição por sexo é ligeiramente favorável ao sexo feminino em séries clínicas (razão F:M ~1,5–2:1), possivelmente pela maior prevalência de biotipo leptossômico e pela sintomatologia pélvica que facilita o diagnóstico em mulheres [2,3]. Em homens, a varicocele esquerda secundária é a apresentação mais frequente. A prevalência do fenômeno anatômico de compressão da VRE (sem manifestação clínica) é estimada em 10–16% da população assintomática em estudos de angioTC [3]. A forma sintomática — denominada 'síndrome' — é menos frequente e ocorre quando a compressão é hemodinamicamente significativa e gera manifestações clínicas [1,2]. Biotipo delgado (IMC baixo), crescimento estatural rápido na adolescência, lordose lombar acentuada e ausência de gordura retroperitoneal são fatores predisponentes reconhecidos [1,4].

Modalidade: CT

A angiotomografia computadorizada (angioTC) com protocolo bifásico (fase arterial e venosa) é o método de imagem mais utilizado para confirmação diagnóstica e planejamento terapêutico da SNQ [1,2,4]. O protocolo ideal inclui aquisição helicoidal com colimação ≤0,625 mm isotropic, injeção de contraste iodado (80–100 mL, fluxo 4–5 mL/s), com aquisição arterial em 25–30 segundos e venosa em 60–70 segundos pós-injeção. Reformatações multiplanares (MPR) sagitais e coronais oblíquas ao longo do eixo da VRE, reconstruções MIP e VRT são essenciais para mensuração precisa do ângulo aortomesentérico, da distância aortomesentérica e do calibre da VRE em todos os seus segmentos [4,6].

Sinais Patognomônicos / Chave

  • Sinal do 'bico' ou 'afunilamento aortomesentérico' ('beaking sign'): estreitamento abrupto e focal da VRE no nível do cruzamento da AMS, com transição em forma de bico entre o segmento hilar dilatado e o segmento comprimido — identificável em reformatações coronais e axiais [1,4,6]
  • Sinal do 'ângulo agudo aortomesentérico': ângulo entre o eixo longitudinal da AA e o da AMS <35° em reformatação sagital mediana — mensurar no plano sagital estritamente mediano para reprodutibilidade [1,4]
  • Sinal da 'discrepância de calibre' da VRE: razão entre o diâmetro máximo da VRE hilar e o diâmetro mínimo no segmento comprimido >3:1 em cortes axiais ou reformatações coronais [2,6]
  • Corte axial ao nível do ângulo aortomesentérico: identificar a VRE como estrutura tubular de baixa atenuação comprimida entre a face posterior da AMS e a face anterior da AA; mensurar distância anteroposterior (aortomesentérica) — valores <4 mm são altamente sugestivos de compressão hemodinâmica significativa [4,6]
  • Reformatação sagital mediana: demonstra com precisão o ângulo entre a AA e a AMS (ângulo aortomesentérico); na SNQ, o ângulo é agudo (<35°) por escassez de gordura retroperitoneal entre os dois vasos; comparar com a distância entre a AMS e o corpo vertebral de L2 [1,2]
  • Segmento hilar da VRE dilatado: diâmetro da VRE no hilo renal esquerdo >13–15 mm em fase venosa — sinal de estase e hipertensão venosa proximal; comparar com o calibre da veia renal direita no mesmo paciente (normalmente semelhante) [2,6]
  • Varizes peripélvicas e do seio renal: múltiplas estruturas venosas tubulares e serpiginosas de baixa atenuação (pré-contraste) com realce em fase venosa ao redor do sistema coletor renal esquerdo — representam colaterais de descompressão da hipertensão venosa renal [1,3]
  • Veia gonadal esquerda dilatada: estrutura venosa tubular serpiginosa com diâmetro >4–5 mm no retroperitônio esquerdo, acompanhando o ureter esquerdo — em mulheres, projeta-se até o ligamento largo e o plexo pampiniforme ovárico; em homens, até o plexo pampiniforme testicular [3]
  • Ausência de gordura retroperitoneal perivascular: espaço aortomesentérico desprovido de gordura adiposa, frequentemente associado a paciente com IMC baixo ou perda de peso recente — sinal importante para o mecanismo fisiopatológico [1,4]
  • Nutcracker Posterior: VRE retroaórtica (variante em ~3%) comprimida entre a face posterior da AA e a face anterior do corpo vertebral; identificar a VRE cruzando posteriormente à AA em cortes axiais e reformatações coronais [3,6]
Modalidade: RM

A angiorressonância magnética (angioRM) venosa e arterial representa excelente alternativa à angioTC, especialmente em pacientes jovens (eliminação de radiação ionizante), pediátricos e em gestantes [2,7]. O protocolo padrão inclui sequências 3D time-resolved com gadolínio (TWIST, TRICKS, GRASP) em fase arterial e venosa, além de sequências morfológicas T1 e T2 em planos axial, coronal e sagital. Sequências de fluxo quantitativo por contraste de fase (phase-contrast MRI) permitem avaliação funcional da velocidade e do volume de fluxo na VRE nos segmentos hilar e comprimido, calculando gradientes hemodinâmicos sem necessidade de cateterismo [7].

Sinais Patognomônicos / Chave

  • Sinal do 'bico aortomesentérico' na angioRM: afunilamento focal da VRE no nível do ângulo aortomesentérico, análogo ao beaking sign da angioTC — identificável em MIP coronais e reformatações multiplanares [2,7]
  • Sinal do 'vazio de fluxo turbulento': nas sequências SE (spin-echo) T1 e T2, a VRE normalmente exibe vazio de fluxo por velocidade elevada; na SNQ, perda assimétrica do void no segmento hilar por fluxo lento (estase), com manutenção do void acceleratedo no segmento comprimido [7]
  • 3D angioRM venosa com gadolínio: demonstração direta da compressão da VRE entre AA e AMS, com dilatação hilar e afunilamento no segmento comprimido; reconstruções MIP coronais permitem mensuração do ângulo e da distância aortomesentérica com precisão comparável à angioTC [2,7]
  • Phase-contrast MRI quantitativa ao nível do ângulo aortomesentérico: mede a velocidade média de fluxo no segmento comprimido versus o segmento hilar; gradiente de velocidade >4:1 é diagnóstico — método em validação mas com alta correlação com os achados Doppler e de cateterismo [7]
  • T2 coronal: varizes peripélvicas e do seio renal aparecem como estruturas serpiginosas de hipersinal em T2 ao redor do sistema coletor renal esquerdo; veia gonadal esquerda dilatada como estrutura tubular de hipersinal T2 no retroperitônio esquerdo [2,3]
  • T1 com supressão de gordura pós-gadolínio: realce das varizes peripélvicas e da veia gonadal dilatada em fase venosa — confirma a natureza vascular das estruturas dilatadas e exclui lesões sólidas mimetizadoras [7]
  • Rim esquerdo: pode apresentar leve edema do parênquima cortical e alargamento do seio renal por varizes em casos avançados; ausência de lesão focal renal é esperada — sua presença deve orientar investigação de causa alternativa de hematúria [2,7]
Modalidade: US

O duplex ultrassom com Doppler colorido e espectral é o método não invasivo de primeira linha para rastreamento da SNQ, disponível, sem radiação e com boa acurácia quando os critérios diagnósticos são rigorosamente aplicados [1,2,4]. A avaliação é realizada em posição supina com o paciente em jejum de 4–6 horas para reduzir a interposição gasosa. O transdutor convexo de 3,5–5 MHz é posicionado em varredura longitudinal e transversal ao nível do epigástrio e flanco esquerdo para identificação da VRE, da AA e da AMS.

Sinais Patognomônicos / Chave

  • Sinal da 'razão de velocidade de pico sistólico' (PSV ratio): razão entre a velocidade de pico sistólico (ou de pico de fluxo) no segmento comprimido da VRE (aortomesentérico) e no segmento hilar — razão ≥4,0 é o critério diagnóstico mais utilizado; razão ≥5,0 tem maior especificidade [1,2,4]
  • Sinal do 'ângulo aortomesentérico reduzido': avaliação do ângulo entre a AA e a AMS em corte longitudinal sagital; ângulo <35° é critério diagnóstico sugestivo quando associado à razão de velocidade aumentada [1,4]
  • Sinal da 'distância aortomesentérica diminuída': distância em milímetros entre a face anterior da AA e a face posterior da AMS no nível da compressão da VRE; valor <4–8 mm é considerado diagnóstico em contexto clínico adequado [4]
  • Doppler espectral no segmento hilar da VRE: fluxo venoso de baixa velocidade, contínuo e levemente pulsátil — velocidade de pico típica de 15–25 cm/s no segmento hilar normal; na SNQ, o segmento hilar pode apresentar velocidade reduzida por estase proximal [1,4]
  • Doppler espectral no segmento aortomesentérico (comprimido): aceleração marcante do fluxo no ponto de compressão — velocidade de pico >100 cm/s (versus <20–30 cm/s no hilar); o fenômeno é análogo ao de um 'jato de estenose' vascular, com aliasing ao Doppler colorido [1,2]
  • Dilatação do segmento hilar da VRE: diâmetro da VRE no hilo renal esquerdo >10 mm em corte transversal, contrastando com a afilamento abrupto no nível do ângulo aortomesentérico — 'sinal do bico' em corte longitudinal [2,4]
  • Varizes do seio renal e peripélvicas: vasos venosos dilatados e tortuosos ao redor do sistema coletor renal esquerdo, identificados ao Doppler colorido como estruturas com fluxo venoso lento; representam colaterais de desvio do fluxo da VRE hipertensiva [1,3]
  • Veia gonadal esquerda dilatada: dilatação da veia ovárica ou espermática esquerda (>4 mm em repouso) ao Doppler — reflete a transmissão da hipertensão venosa renal à circulação gonadal; fluxo gonadal reverso (hepatofugal) pode ser documentado ao Doppler espectral [1,3]
  • Limitações do método: avaliação dependente de operador; interposição gasosa pode limitar a janela acústica no segmento aortomesentérico; pacientes obesos têm janela comprometida — angioTC ou angioRM são obrigatórias para confirmação [2,4]

Hematúria por neoplasia urotelial (carcinoma de células transicionais do ureter ou pelve renal esquerda)

Como diferenciar:O carcinoma urotelial produz hematúria por lesão mucosa intraluminal — na angioTC com fase excretora (uroTC), evidencia-se como defeito de enchimento irregular, assimétrico e com realce mural intraluminal no ureter ou pelve renal, com espessamento da parede do sistema coletor. A SNQ NÃO produz defeito de enchimento intraluminal no sistema coletor: a hematúria é por erosão das varizes peripélvicas, sem massa urotelial. Na angioTC venosa da SNQ, os achados patológicos são todos extraluminais ao sistema coletor (varizes peripélvicas, VRE dilatada, ângulo agudo) — o ureter e a pelve têm paredes finas e regulares [1,2]. A cistoscopia diferencia hematúria unilateral (saindo pelo óstio ureteral esquerdo na SNQ) de bilateral, e o exame de urina de fase confirma hematúria glomerular (dismórfica) vs. urotelial (isomórfica) [1].

Síndrome de Loin Pain Hematuria (LPHS)

Como diferenciar:A LPHS é uma entidade distinta caracterizada por hematúria recorrente e dor no flanco sem causa estrutural identificável — diagnóstico de exclusão. Na angioTC e na angioRM, a LPHS não apresenta compressão da VRE, ângulo aortomesentérico normal, calibre normal da VRE e ausência de varizes peripélvicas. No Doppler venoso, a razão de velocidade PSV na VRE é normal (<4:1). A LPHS é diagnosticada após exclusão de SNQ e outras causas estruturais; biópsia renal pode revelar alterações glomerulares ou tubulares inespecíficas [2].

Varicocele idiopática esquerda primária

Como diferenciar:A varicocele esquerda primária resulta de incompetência valvar da veia espermática esquerda, sem compressão da VRE como causa [3]. No Doppler escrotal, o refluxo da veia espermática esquerda é demonstrado às manobras de Valsalva, com diâmetro do plexo pampiniforme >3 mm. Na angioTC, a VRE tem calibre NORMAL, o ângulo aortomesentérico é normal (>35°) e não há dilatação hilar da VRE. Na SNQ com varicocele secundária, a angioTC demonstra o ângulo agudo aortomesentérico, a compressão da VRE e a dilatação retrógrada da veia gonadal por hipertensão transmitida — o refluxo gonadal tem causa extrínseca proximal, não valvar primária.
O tratamento é diferente: varicocele primária responde a embolização seletiva da veia espermática; a secundária à SNQ requer tratar a compressão da VRE [1,3].

Síndrome de congestão pélvica por insuficiência das veias ovarianas (sem SNQ)

Como diferenciar:A síndrome de congestão pélvica primária resulta de incompetência valvar das veias ovarianas sem obstrução da VRE [3]. Na angioTC/angioRM, as veias ovarianas estão dilatadas bilateralmente (frequentemente mais à esquerda), porém a VRE tem calibre normal, ângulo aortomesentérico normal e sem dilatação hilar. Na SNQ com congestão pélvica secundária, a dilatação é predominantemente unilateral esquerda com causa proximal demonstrável — compressão da VRE com gradiente de pressão. O Doppler venoso da VRE é normal na congestão primária e patológico (razão PSV >4:1) na SNQ [1,3].

Glomerulonefrite IgA (Doença de Berger) com hematúria

Como diferenciar:A nefropatia por IgA é a causa mais comum de hematúria glomerular recorrente em adultos jovens e pode mimetizar a SNQ clinicamente. No exame de urina, a hematúria glomerular é dismórfica (eritrócitos acantócitos >5% na microscopia de fase), com cilindrúria e proteinúria tubuloglomerular — padrão diferente da hematúria de origem venosa da SNQ (eritrócitos isomórficos). Na angioTC/angioRM, a nefropatia por IgA NÃO produz compressão da VRE, varizes peripélvicas ou dilatação da VRE hilar — os vasos renais são normais. A SNQ pode coexistir com nefropatia por IgA; nesses casos, o Doppler venoso define o componente hemodinâmico da SNQ e a biópsia renal confirma a nefropatia [2,4].

Compressão da VRE por tumor retroperitoneal (linfoma, sarcoma, adenopatia volumosa)

Como diferenciar:Na compressão secundária da VRE por massa retroperitoneal, a angioTC demonstra uma lesão de partes moles identificável como causa da obstrução — com realce heterogêneo, necrose central ou adenopatias satélites. A compressão não está restrita ao ângulo aortomesentérico específico da SNQ e pode ser em qualquer ponto do trajeto da VRE. O ângulo aortomesentérico é normal ou aumentado (pela própria massa afastando os vasos), e não há relação anatômica com a AMS. Na SNQ clássica, a compressão é estritamente no ângulo entre AA e AMS, sem massa retroperitoneal identificável — os vasos são normais e o diagnóstico é anatômico-funcional [6].

Trombose da veia renal esquerda

Como diferenciar:A trombose da VRE (por síndrome nefrótica, neoplasia renal, estados de hipercoagulabilidade) produz compressão extrínseca do calibre venoso com déficit de enchimento luminal — na angioTC com contraste, o trombo é identificado como defeito de enchimento hipoenso intraluminal com expansão do calibre da veia (veia trombosada frequentemente dilatada). Na SNQ, o lúmen da VRE está PÉRVIO, com opacificação contrastante normal — a compressão é extrínseca e mecânica, sem material intraluminal. O 'sinal do halo' de realce periférico da parede venosa envolvendo defeito central ausente na SNQ diferencia da trombose aguda [6,7].

Manejo Clínico (Alto Nível)

O tratamento da SNQ é individualizado conforme a gravidade dos sintomas, a idade do paciente, o grau de compressão hemodinâmica e as complicações associadas [1,2,5]. Em adolescentes e adultos jovens com hematúria leve e sem repercussão hematológica, a conduta expectante e conservadora por 12–24 meses é recomendada como primeira linha, pois o aumento da gordura retroperitoneal com o ganho ponderal e o crescimento corporal pode reduzir a compressão espontaneamente — controle clínico e ultrassonográfico semestral [1,5]. Quando a conduta conservadora falha ou em pacientes adultos com hematúria persistente, dor intratável ou varicocele/congestão pélvica refratária, a intervenção endovascular é o tratamento de escolha [4,5]. O stenting endovascular da VRE (stents de nitinol dedicados, 12–14 mm de diâmetro, autoexpansíveis) tem taxas de sucesso técnico >95% e permeabilidade primária de 85–90% em 5 anos, com resolução da hematúria em ~80% dos casos [5]. A angioplastia com balão isolada sem stent tem alta taxa de restenose (>50%) e não é recomendada como tratamento definitivo [5]. As abordagens cirúrgicas abertas ou laparoscópicas são reservadas para falha do stent, anatomia desfavorável para abordagem endovascular ou preferência institucional [2,5]: (1) Transposição da VRE — reimplante da VRE na VCI em posição mais inferior ao ponto de compressão; (2) Transposição da AMS — deslocamento cirúrgico da origem da AMS para eliminar o ângulo compressivo; (3) Nefrectomia laparoscópica com autotransplante renal — reservada para casos extremos refratários. Em mulheres com síndrome de congestão pélvica associada, a embolização das veias ovarianas esquerdas pode ser complementar ao tratamento da compressão da VRE [3,5]. Seguimento pós-intervenção com Doppler venoso em 1, 3 e 6 meses e depois anualmente [5].

Dicas Cruciais pro Laudo

  • 1SEMPRE mensure o ângulo aortomesentérico na reformatação sagital mediana e a distância aortomesentérica no corte axial ao nível da compressão da VRE — sem essas mensurações, o laudo de angioTC perde objetividade diagnóstica; incluir os valores numéricos explicitamente [1,4,6]
  • 2Descreva a razão de calibre entre o segmento hilar dilatado e o segmento comprimido da VRE (diâmetro hilar / diâmetro no ângulo) — razão >3:1 é critério diagnóstico relevante; apresentar ambas as medidas em mm no laudo [2,6]
  • 3Pesquise ativamente varizes peripélvicas e do seio renal esquerdo em toda angioTC com compressão da VRE — estruturas venosas serpiginosas ao redor do sistema coletor que realçam na fase venosa; sua presença confirma hipertensão venosa renal e aumenta a especificidade diagnóstica [1,3]
  • 4Pesquise a veia gonadal esquerda: em homens, dilatação >3 mm no contexto de SNQ deve ser correlacionada clinicamente com varicocele; em mulheres, dilatação >4 mm com varizes pélvicas sugere síndrome de congestão pélvica secundária — informação de alto impacto clínico que deve constar no laudo [3]
  • 5Não diagnostique SNQ baseado apenas no ângulo aortomesentérico isolado — ângulo <35° é necessário mas não suficiente; até 16% dos indivíduos assintomáticos têm ângulo reduzido sem síndrome; correlacionar com dados clínicos (hematúria, dor no flanco) e critérios Doppler [1,4]
  • 6Identifique e descreva a variante de Nutcracker Posterior (VRE retroaórtica) — diferente anatomia, diferente mecanismo de compressão, diferente abordagem terapêutica; a VRE retroaórtica cruza posterior à AA antes de entrar na VCI [3,6]
  • 7Em laudo de ultrassom Doppler com razão PSV >4:1 na VRE, nunca emitir laudo sem sugerir angioTC confirmatória e correlação clínica — o ultrassom é sensível mas dependente de operador; o diagnóstico definitivo exige método seccional [4]
  • 8Síndrome de Wilkie coexistente: sempre avalie a terceira porção do duodeno nas reformatações do angioTC quando diagnosticar SNQ — o mesmo ângulo aortomesentérico agudo pode comprimir o duodeno simultaneamente; mencionar no laudo se houver sinal de dilatação duodenal proximal [4]
  • 9Após stenting da VRE, o stent de nitinol é identificável como estrutura metálica na topografia da VRE — avaliar permeabilidade pela presença de realce luminal homogêneo (stent pérvio) versus defeito de enchimento central (retrombose); artefatos de 'blooming' em TC limitam a avaliação; Doppler é superior para follow-up [5]
  • [1]1. He Y, Wu Z, Chen S, et al. Nutcracker syndrome — how well do we know it? Urology. 2014;83(6):1179–1184.
  • [2]2. Kurklinsky AK, Rooke TW. Nutcracker phenomenon and nutcracker syndrome. Mayo Clin Proc. 2010;85(6):552–559.
  • [3]3. Kim SH, Kim HD, Park JH, et al. Left renal vein entrapment (nutcracker phenomenon): diagnosis with Doppler US. Radiology. 1996;200(1):185–190.
  • [4]4. Liu Y, Sun Y, Lv G, et al. Diagnosis and treatment of left renal vein entrapment syndrome: clinical experience of 49 cases. Urology. 2020;136:185–191.
  • [5]5. Scultetus AH, Villavicencio JL, Gillespie DL. The nutcracker syndrome: its role in the pelvic venous disorders. J Vasc Surg. 2001;34(5):812–819.
  • [6]6. Takebayashi S, Ueki T, Ikeda N, Fujikawa A. Diagnosis of the nutcracker syndrome with color Doppler sonography: correlation with flow patterns on retrograde left renal venography. AJR Am J Roentgenol. 1999;172(1):39–43.
  • [7]7. Orczyk K, Wysiadecki G, Majos A, et al. What every radiologist should know about left renal vein entrapment syndrome (Nutcracker Syndrome): review of the current state of the art. Anat Rec. 2021;304(11):2464–2477.

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Tomografia 1 de 4

Angiotomografia computadorizada de abdome com contraste endovenoso — fase venosa tardia. Reformatação coronal oblíqua ao longo do eixo da veia renal esquerda (VRE). Identificar dilatação marcante da VRE no segmento hilar (seta branca, diâmetro 18 mm) com afunilamento abrupto em forma de 'bico' ('beaking sign', seta amarela) ao nível do cruzamento com a artéria mesentérica superior (AMS, A). O segmento comprimido da VRE apresenta diâmetro anteroposterior de 3 mm (razão hilar/comprimido = 6:1). Múltiplas varizes peripélvicas são identificadas ao redor do sistema coletor renal esquerdo (cabeças de seta), confirmando hipertensão venosa renal crônica e redistribuição do fluxo venoso para circulação colateral. A veia cava inferior (VCI) está pérvie e com calibre normal. Achados consistentes com Síndrome do Quebra-Nozes Anterior (Nutcracker Anterior) com repercussão hemodinâmica significativa [1,2,4].

Atenção Especial

Principais Complicações

  • Hematúria macrográfica recorrente grave — pode levar a anemia ferropriva em casos crônicos não tratados [1,2]
  • Síndrome pós-trombótica renal — trombose da VRE por estase e hipertensão venosa crônica; raramente, pode causar infarto renal segmentar [2]
  • Insuficiência renal esquerda — em casos extremamente avançados com hipertensão venosa intrarrenal grave e crônica, podendo haver atrofia cortical progressiva [1]
  • Varicocele esquerda com oligospermia e infertilidade masculina — hipertermia testicular crônica por refluxo venoso; tratamento da SNQ subjacente é prioritário antes da ligadura da varicocele [3]
  • Síndrome de congestão pélvica crônica incapacitante — dor pélvica crônica, dispareunia profunda e varizes genitais volumosas em mulheres [3]
  • Obstrução por stent endovascular — migração, fratura ou restenose do stent colocado na VRE; incidência de ~5–10% em longo prazo, exigindo vigilância por imagem [5]
  • Nefropatia crônica por hipertensão venosa intrarrenal persistente — proteinúria progressiva e declínio da taxa de filtração glomerular em casos de diagnóstico tardio [1,2]

Sempre Avaliar (Associações)

  • Varicocele esquerda secundária — em homens, por transmissão da hipertensão venosa da VRE para a veia espermática esquerda; presente em até 40% dos casos sintomáticos de SNQ masculinos [1,3]
  • Síndrome de congestão pélvica — em mulheres, por dilatação das veias ovarianas esquerdas e do plexo pampiniforme ovárico; manifesta-se como dor pélvica crônica, dispareunia e varizes vulvares [2,3]
  • Proteinúria ortostática (postural) — microalbuminúria em posição ortostática por congestão venosa glomerular em casos de hipertensão venosa intrarrenal persistente [1]
  • Biotipo leptossômico e IMC baixo — ausência de gordura retroperitoneal perivascular como fator predisponente, frequente em adolescentes com crescimento estatural rápido [1,4]
  • Lordose lombar acentuada — altera a angulação da AMS em relação à AA, reduzindo o ângulo aortomesentérico [1]
  • Ptose renal esquerda — em casos associados, pode aumentar a tensão da VRE no ângulo aortomesentérico [3]
  • Síndrome de May-Thurner — compressão da veia ilíaca comum esquerda pela artéria ilíaca comum direita; pode coexistir com SNQ em pacientes leptossômicos com alterações vasculares bilaterais [2]
  • Síndrome da artéria mesentérica superior (Síndrome de Wilkie) — compressão da terceira porção do duodeno pelo ângulo aortomesentérico; compartilha o mesmo mecanismo anatômico da SNQ (ângulo agudo e escassez de gordura perivascular) e pode coexistir no mesmo paciente [4]