Síndrome de May-Thurner (Compressão Ilíaca Esquerda)

Também conhecida como: Síndrome de May-Thurner, Síndrome de Cockett, Síndrome de compressão da veia ilíaca comum esquerda, Iliocaval compression syndrome, IVCS — Iliac Vein Compression Syndrome

Doença / SíndromeCID-10: I87.1 0 VIEWS

A Síndrome de May-Thurner (SMT) é uma condição anatômica e fisiopatológica na qual a veia ilíaca comum esquerda (VICЕ) é comprimida entre a artéria ilíaca comum direita (AICD), que a cruza anterior, e o corpo da quinta vértebra lombar (L5) ou do promontório sacral, posteriormente [1]. Esta compressão extrínseca crônica gera turbulência de fluxo venoso, espessamento fibrótico da parede venosa intraluminal ('espora ou carina de Cockett') e aumento da resistência ao retorno venoso do membro inferior esquerdo, predispondo à trombose venosa profunda (TVP) iliofemoral esquerda e à hipertensão venosa crônica do membro ipsilateral [1,2]. Clinicamente, a síndrome manifesta-se como TVP iliofemoral esquerda desproporcional e de aparente causa inexplicável em adultos jovens, predominantemente mulheres, ou como insuficiência venosa crônica refratária ao tratamento convencional [2,3]. O diagnóstico é sugerido pelos métodos de imagem não invasivos (angiotomografia, angiorressonância e Doppler venoso) e confirmado pela flebografia por subtração digital (FSD) com venografia intravascular por ultrassom (IVUS) — considerada o padrão-ouro para avaliação do grau de compressão e da presença da espora intraluminal [3,4]. O tratamento definitivo em pacientes sintomáticos inclui a recanalização endovascular com angioplastia e colocação de stent venoso, com excelentes taxas de permeabilidade primária em longo prazo [4,5].

Fisiopatologia

A fisiopatologia da SMT envolve três elementos interdependentes descritos classicamente por May e Thurner em 1957 após análise de 430 espécimes de autópsia [1]: (1) Compressão mecânica extrínseca: a VICE é comprimida entre a AICD — que a cruza obliquamente em sua face anterior — e o corpo vertebral de L5 ou do promontório sacral posteriormente. Esta relação anatômica é uma variante fisiológica presente em 20–25% da população geral, porém apenas uma fração desenvolve síndrome clínica manifesta [1,2]. A compressão é acentuada pela pulsatilidade arterial contínua transmitida à parede venosa subjacente. (2) Lesão endotelial por microtrauma pulsátil crônico: a compressão repetitiva e rítmica da parede venosa pelo pulso arterial gera microtrauma endotelial, ativação de macrófagos, hiperplasia intimal reativa com depósito de colágeno e elastina, e formação progressiva de estruturas fibrosas intraluminais denominadas 'esporas' ou 'carinas' de Cockett — bandas transversais ou longitudinais de tecido fibroelástico que estreitam ainda mais o lúmen venoso e criam turbulência de fluxo [1,3]. (3) Estase venosa e trombogênese: a redução do lúmen e a turbulência de fluxo ativam a cascata de coagulação (tríade de Virchow), resultando em TVP iliofemoral esquerda, que pode propagar-se à veia cava inferior e ao segmento femoral profundo. A hipertensão venosa crônica resultante leva a insuficiência valvar secundária, varizes pélvicas, síndrome pós-trombótica e úlceras venosas de difícil cicatrização [2,5].

Epidemiologia

A compressão anatômica assintomática da VICE está presente em 20–25% da população adulta geral [1,2]. A SMT clinicamente manifesta ocorre predominantemente em mulheres jovens a meia-idade (18–50 anos), com pico na 3ª e 4ª décadas, refletindo a influência hormonal (estrogênio aumenta a coagulabilidade e reduz o tônus venoso), uso de contraceptivos orais e a gravidez como fatores precipitantes [2,3]. A razão feminino:masculino é de aproximadamente 2–3:1 em séries clínicas [2]. Estima-se que a SMT seja responsável por 2–5% de todos os casos de TVP dos membros inferiores e por até 18–49% dos casos de TVP iliofemoral esquerda isolada em adultos jovens [2,3]. Em populações de pacientes com TVP iliofemoral esquerda recorrente ou inexplicável, a prevalência de compressão significativa (>50% do lúmen) pode atingir 65–70% nos estudos com IVUS [4]. A imobilização prolongada, estados de hipercoagulabilidade (trombofilias hereditárias — fator V de Leiden, mutação da protrombina G20210A) e obesidade são cofatores relevantes [2,5].

Modalidade: CT

A angiotomografia computadorizada (angioTC) com protocolo venoso é o método não invasivo de primeira linha para avaliação da SMT, permitindo avaliação morfológica precisa da VICE, mensuração do grau de compressão, identificação de trombose e avaliação de causas externas alternativas de compressão [2,3,6]. O protocolo ideal inclui aquisição na fase venosa tardia (60–90 segundos após injeção de contraste iodado endovenoso, volume 80–100 mL, fluxo 3–4 mL/s) com reformatações multiplanares (MPR) coronais, sagitais e axiais de alta resolução, além de reconstruções de máxima intensidade de projeção (MIP) e volume rendering (VRT) para visualização tridimensional da relação arteriovenosa [6].

Sinais Patognomônicos / Chave

  • Sinal da 'fita' ('ribbon sign'): achatamento anteroposterior acentuado da VICE em corte axial ao nível do cruzamento da AICD, com formato elíptico ou linear em vez da morfologia circular normal [2,6]
  • Razão de compressão >50%: compressão da VICE medida como redução do diâmetro anteroposterior em relação ao diâmetro transversal no ponto de cruzamento; valores >50% são considerados hemodinamicamente significativos [3,6]
  • Sinal da 'asa de borboleta' (coronal MIP): dilatação das veias ilíacas internas bilaterais e das veias colaterais pélvicas em padrão simétrico bilateralmente, refletindo redistribuição de fluxo [2]
  • Corte axial ao nível de L4-L5: a VICE apresenta compressão anteroposterior com o segmento anterior em contato íntimo com a parede posterior da AICD; o espaço entre a veia e o corpo vertebral é obliterado; mensurar os diâmetros AP e transverso e calcular a razão de compressão [3,6]
  • Reformatação coronal oblíqua (ao longo do eixo da VICE): demonstra o segmento supracompressivo dilatado, o ponto de compressão e, em casos de trombose, a extensão cranial do trombo em direção à cava inferior e caudal ao segmento femoral [6]
  • Trombose iliofemoral esquerda associada: defeito de enchimento intraluminal hipoenso (agudo) ou iso a hiperdenso e com calcificações periféricas (crônico) na VICE, veia ilíaca externa e/ou veia femoral comum esquerdas; no trombo agudo, o 'sinal do halo' — realce periférico da parede venosa envolvendo o defeito central hipoenso — confirma TVP ativa [6]
  • Edema dos tecidos moles do membro inferior esquerdo: espessamento subcutâneo e borrão da gordura no compartimento medial e posterior da coxa e da perna esquerdas, refletindo a hipertensão venosa crônica [2]
  • Circulação colateral pélvica: veias ilíacas internas, ovarianas/gonadais, lombares ascendentes e presacral espessadas e tortuosas na angioTC venosa [3,6]
  • Causas secundárias de compressão identificáveis na TC: massas retroperitoneais (linfomas, sarcomas, adenopatias bulky), cistos ovarianos volumosos, útero grávido ou miomatoso, hematomas retroperitoneais — distinção fundamental do padrão primário da SMT [6]
Modalidade: RM

A angiorressonância magnética (angioRM) venosa representa excelente alternativa à angioTC, especialmente em pacientes jovens (redução de exposição à radiação ionizante), gestantes e nefropatas (agentes de contraste baseados em gadolínio têm menor nefrotoxicidade que o iodo) [2,7]. O protocolo de angioRM venosa inclui sequências 3D graduadas (time-resolved MRA, TWIST ou TRICKS) com gadolínio na fase venosa, além de sequências morfológicas T1 e T2 em planos axial, coronal e sagital. Sequências black-blood (double inversion recovery) são particularmente úteis para caracterização da parede venosa e da espora intraluminal, aparecendo como estruturas de baixo sinal intraluminal sobre fundo de alto sinal do lúmen [7].

Sinais Patognomônicos / Chave

  • Sinal 'black blood' da espora de Cockett: estrutura linear de hipossinal intraluminal na VICE nas sequências black-blood, representando a carina fibroelástica — achado altamente específico da SMT crônica [7]
  • Sinal do 'vazio de fluxo' assimétrico: em sequências SE (spin-echo) T1 e T2, a VICE normalmente apresenta ausência de sinal ('flow void') pelo fluxo; na SMT com compressão grave, o vazio de fluxo está reduzido ou ausente pelo fluxo lento/turbulento ou trombose [7]
  • Hipersinal T1 intraluminal: trombo recente (<2 semanas) na VICE aparece como hipersinal T1 por metaemoglobina — diferencia trombo agudo do fluxo lento (que é hipointenso em T1) [7]
  • T1 axial: lúmen da VICE hipointenso (fluxo rápido) ou com hipersinal focal (trombo subagudo por metaemoglobina); parede venosa isointensa ao músculo; espora de Cockett pode ser identificada como estrutura linear de baixo sinal [7]
  • T2 axial/coronal: edema perivenoso e subcutâneo do membro esquerdo como hipersinal difuso nos tecidos moles; trombo agudo como hipossinal central (desoxiemoglobina) e trombo subagudo como hipersinal (metaemoglobina) [7]
  • 3D MRA venosa com gadolínio (fase venosa tardia): demonstra o ponto de compressão, a extensão da trombose e a circulação colateral pélvica com alta resolução espacial; sensibilidade ~90% para compressão >50% quando comparada ao IVUS [2,7]
  • DWI: trombo recente pode exibir restrição moderada (ADC reduzido) em comparação ao lúmen pérvio adjacente; principalmente útil para diferenciação de trombo agudo vs. crônico vs. componente neoplásico [7]
  • Sequências de fluxo (phase-contrast): avaliam quantitativamente o gradiente de velocidade de fluxo entre o segmento pré e pós-compressão da VICE; gradiente de velocidade >2:1 indica compressão hemodinamicamente significativa — técnica ainda em validação mas promissora [7]
Modalidade: RX

A radiografia convencional não tem papel diagnóstico direto na SMT. Contudo, a flebografia por subtração digital (FSD) — tecnicamente um procedimento de imagem fluoroscópica com contraste iodado injetado por via endovenosa percutânea — foi historicamente o método de referência para diagnóstico e ainda integra o planejamento e a avaliação intraoperatória do tratamento endovascular [3,4]. Na FSD diagnóstica, o contraste é injetado na veia femoral comum ou poplítea com fluoroscopia sequencial, documentando o segmento ilíaco e a confluência iliocaval.

Sinais Patognomônicos / Chave

  • Sinal da 'cintura' ou 'waist sign': estreitamento extrínseco focal e abrupto do segmento da VICE ao nível do cruzamento com a AICD, visível na FSD como constrição central da coluna de contraste [1,3]
  • Sinal da 'espora de Cockett' (Cockett's spur): defeito de enchimento intraluminal linear ou pontilhado na VICE na FSD — representa a carina fibroelástica intraluminal, patognomônica da SMT crônica [1]
  • Circulação colateral pélvica: opacificação de veias colaterais pélvicas ipsilaterais (veia ilíaca interna, veias presacral, gonadal e ascendente lombar) compensando a obstrução da VICE [3,4]
  • Atraso no washout do contraste: esvaziamento retardado da coluna de contraste na VICE comparado à veia ilíaca comum direita na FSD dinâmica [3]
  • FSD anteroposterior: coluna de contraste da VICE com estreitamento focal abrupto ao nível de L4-L5 (cruzamento da AICD); o segmento proximal (supracompressão) frequentemente aparece dilatado e colateral; o segmento distal (infracompressão) pode estar trombosado ou apresentar fluxo reduzido [1,3]
  • FSD oblíqua (45° OAE): permite melhor visualização do ponto de cruzamento da AICD sobre a VICE, separando as estruturas sobrepostas na incidência AP [3]
  • Circulação colateral: veias ilíacas internas bilaterais, veia presacral, plexo venoso pélvico e veias lombares ascendentes são opacificadas como vias alternativas de drenagem [4]
  • Limitações da FSD convencional: subestima o grau real de compressão (projetiva, bidimensional); não avalia a espora intraluminal com a mesma acurácia do IVUS — razão pela qual o IVUS é considerado complementar e superior para decisão terapêutica [4]
Modalidade: US

O duplex ultrassom venoso com Doppler colorido e espectral é o método inicial de investigação de TVP dos membros inferiores na maioria dos protocolos clínicos, porém tem limitações significativas na avaliação do segmento ilíaco — particularmente a VICE — pela interposição de gases intestinais, tecido adiposo e profundidade da estrutura [2,3]. Apesar disso, achados funcionais no Doppler espectral da veia femoral comum esquerda podem indiretamente sugerir a SMT mesmo quando a VICE não é diretamente visualizada.

Sinais Patognomônicos / Chave

  • Sinal da 'ausência de fasicidade respiratória': normalmente, o fluxo venoso femoral varia com a respiração ('fasic flow'); na SMT com compressão grave, o fluxo na veia femoral comum esquerda torna-se contínuo e monofásico (perda da modulação respiratória), indicando obstrução proximal no segmento ilíaco [3]
  • Sinal da assimetria de calibre: diâmetro da veia femoral comum esquerda maior que a direita em repouso, com distensibilidade reduzida à manobra de Valsalva [2,3]
  • Duplex Doppler da veia femoral comum: fluxo contínuo e monofásico no lado esquerdo (anormal) versus fluxo fásico normal no lado direito — assimetria funcional sugestiva de obstrução iliocaval ipsilateral [3]
  • Compressibilidade da veia femoral e poplítea: ausência de compressibilidade (lúmen não colaba à compressão da sonda) em segmento trombosado; importante para extensão inferior da TVP associada [2]
  • IVUS (ultrassom intravascular): gold standard para quantificação da compressão da VICE, identificação da espora de Cockett e planejamento do stent; detecta compressão e lesão intraluminal não visível na venografia convencional ou na angioTC em 20–30% dos casos [4]
  • Limitações: visualização direta da VICE com Doppler convencional é possível em apenas 50–60% dos pacientes por condições técnicas; estudo negativo NÃO exclui SMT — complementação obrigatória com angioTC ou angioRM [2,3]

Trombose venosa profunda iliofemoral por trombofilia primária (Fator V de Leiden, protrombina G20210A)

Como diferenciar:A trombofilia primária causa TVP iliofemoral esquerda ou direita sem predileção de lateralidade, frequentemente bilateral ou com episódios recorrentes em diferentes sítios (sistêmica). Na angioTC e angioRM, NÃO há compressão extrínseca identificável da VICE nem relação anatômica anormal com a AICD — o diâmetro da veia é simétrico bilateralmente antes do evento trombótico. Na SMT, a TVP é quase exclusivamente esquerda (>85% dos casos), há achatamento anteroposterior da VICE ao nível de L4-L5 e frequentemente dilatação das colaterais pélvicas ipsilaterais mesmo antes do evento trombótico. O estudo hematológico de trombofilia é positivo na trombofilia primária e pode ser normal na SMT isolada, embora trombofilias sejam cofatores precipitantes na SMT em até 40% dos casos [2,5].

Compressão venosa por massa retroperitoneal (linfoma, sarcoma retroperitoneal, adenopatia bulky)

Como diferenciar:Na compressão por massa extrínseca secundária, a angioTC demonstra uma lesão de partes moles retroperitoneal claramente identificável como causa da compressão — com realce heterogêneo, necrose central, invasão de planos adjacentes ou adenopatias satélites. A compressão pode acometer qualquer segmento da VICE, veia cava inferior ou veias ilíacas direitas, sem a topografia específica do cruzamento da AICD sobre a VICE (nível L4-L5) que caracteriza a SMT. O eixo de compressão é variável e depende da localização da massa, enquanto na SMT é sempre anteroposterior no ponto de cruzamento arteriovenoso [6]. A biópsia da massa confirma o diagnóstico etiológico.

Síndrome pós-trombótica (SPT) iliofemoral esquerda sem SMT subjacente

Como diferenciar:A SPT resulta de TVP prévia com recanalização incompleta, levando a obstrução residual e insuficiência valvar. Na angioTC/angioRM, a VICE pode estar espessada, com calcificações murais, recanalização parcial e irregularidades intraluminais — porém SEM o achatamento anteroposterior focal e simétrico no nível do cruzamento da AICD que caracteriza a SMT. No IVUS, a SPT mostra fibrose difusa e trabéculas intraluminais pós-trombóticas ao longo de todo o segmento, enquanto a SMT apresenta compressão focal com espora de Cockett no nível do cruzamento.
A distinção é fundamental para o planejamento: a SMT pode ser a causa da TVP inicial que gerou a SPT, e ambas podem coexistir — o IVUS diferencia os dois componentes [4].

Insuficiência venosa crônica primária (refluxo valvar sem obstrução)

Como diferenciar:Na insuficiência venosa crônica (IVC) primária, o Doppler venoso demonstra refluxo valvar (duração >0,5 s em posição ortostática) nas veias safenas e/ou perfurantes, sem obstrução ao fluxo proximal. Na SMT, o mecanismo é obstrutivo (compressão extrínseca), e o Doppler venoso revela fluxo contínuo e monofásico na veia femoral comum esquerda por resistência ao retorno venoso, sem refluxo primário.
A angioTC diferencia claramente: na IVC primária, a VICE tem calibre normal, paredes regulares e sem compressão extrínseca; as varizes são de distribuição safeniana típica [2]. A pletismografia de oclusão pode diferenciar componente obstrutivo do refluxo.

Compressão da veia ilíaca por útero grávido ou miomatose uterina volumosa

Como diferenciar:A compressão uterina da VICE ocorre geralmente no 3° trimestre da gestação ou por miomas volumosos de parede uterina posterior/lateral. Na angioTC (ou angioRM em gestantes), a massa uterina é facilmente identificada como causa da compressão extrínseca, com a VICE deslocada lateralmente e comprimida por estrutura de partes moles de contorno regular com realce homogêneo (miométrio) ou heterogêneo (mioma com degeneração). A topografia da compressão é inferior e medial ao nível da pelve maior, sem a relação específica com a AICD sobre L4-L5 que define a SMT. A compressão regride após o parto ou tratamento do mioma, ao contrário da SMT que é anatômica e permanente [6].

Trombose da veia ilíaca por cateter venoso central de longa permanência (PICC, cateter de hemodiálise)

Como diferenciar:A TVP associada a cateter (CRAVT) acomete tipicamente a veia subclávia, axilar ou a cava superior, mas pode estender-se à cava inferior e veias ilíacas. Na angioTC, o cateter é identificado como estrutura linear hiperdensa no interior do vaso, com o trombo imediatamente adjacente à sua superfície externa (trombo de 'manguito'). Não há compressão extrínseca identificável da VICE nem relação anormal com a AICD. A história clínica de cateterismo venoso central e a visualização direta do dispositivo na imagem diferem inequivocamente da SMT [2,6].

Compressão venosa por aneurisma da artéria ilíaca comum direita

Como diferenciar:O aneurisma ilíaco direito pode comprimir extrinsecamente a VICE, mimetizando parcialmente a SMT. Na angioTC, a artéria ilíaca comum direita aneurismática apresenta dilatação focal com diâmetro >15 mm, podendo ter calcificações murais, trombose mural com crescente hipodenso e, em casos volumosos, efeito de massa sobre a veia adjacente. Na SMT clássica, a AICD tem calibre normal (<15 mm), e a compressão é pelo cruzamento fisiológico da artéria de calibre normal sobre a veia — sem dilatação aneurismática identificável. A distinção é crucial pois o aneurisma ilíaco exige tratamento específico (exclusão cirúrgica ou endovascular) independentemente da compressão venosa associada [6].

Manejo Clínico (Alto Nível)

O tratamento da SMT sintomática segue protocolo escalonado baseado na apresentação clínica [3,4,5]. Na TVP iliofemoral aguda associada à SMT (<14 dias de evolução), o tratamento preferencial é a trombólise fármaco-mecânica dirigida por cateter (CDT — catheter-directed thrombolysis) com infusão de tPA intratrombo por 12–48 horas, com ou sem trombectomia mecânica percutânea (PMT), seguida de angioplastia com balão e colocação de stent venoso dedicado no segmento comprimido — stents venosos ilíacos de grande calibre (14–16 mm de diâmetro, nitinol) são preferidos aos stents arteriais pela maior flexibilidade e força radial [4,5]. A anticoagulação sistêmica (heparina não fracionada ou HBPM) é mantida durante e após a trombólise, com transição para anticoagulante oral por no mínimo 3–6 meses pós-procedimento. Na SMT sem TVP aguda (dor crônica, edema refratário, insuficiência venosa obstrutiva), a indicação de stenting é baseada na compressão ≥50% ao IVUS associada a sintomas refratários — angioplastia com balão isolada tem altas taxas de reestenose e não é recomendada [4]. Contraceptivos hormonais devem ser suspensos definitivamente. Terapia compressiva com meias elásticas de média compressão (20–30 mmHg) é adjuvante obrigatória no pós-operatório. O seguimento inclui Doppler venoso semestral por 2 anos, depois anual, para monitoramento da permeabilidade do stent. Em gestantes com SMT e TVP, a anticoagulação com HBPM em dose plena durante toda a gestação e puerpério é mandatória; o stenting é reservado para casos refratários pós-parto [2,5].

Dicas Cruciais pro Laudo

  • 1SEMPRE mensure o diâmetro anteroposterior e transversal da VICE no ponto de cruzamento com a AICD e calcule a razão de compressão percentual — 'compressão significativa' é redução ≥50% do diâmetro AP em relação ao diâmetro transverso; sem essa mensuração o laudo perde valor clínico direto [3,6]
  • 2TVP iliofemoral esquerda em mulher jovem SEM fator de risco óbvio: SEMPRE pesquise ativamente a compressão da VICE na angioTC ou angioRM — reformatações coronais e sagitais são obrigatórias; não laudar apenas 'TVP iliofemoral esquerda' sem comentar a presença ou ausência de compressão extrínseca [2,6]
  • 3A ausência de compressão identificável na angioTC NÃO exclui SMT — o IVUS detecta compressão e espora intraluminal em 20–30% de casos com TC aparentemente normal; inclua no laudo a recomendação de IVUS quando a suspeita clínica for alta e a TC for inconclusiva [4]
  • 4Descreva a extensão craniocaudal da trombose: documentar se o trombo atinge a veia cava inferior (extensão cranial) e até qual nível (femoral superficial, femoral profunda, poplítea) — essa informação direciona a extensão do cateter de trombólise e o stent necessário [6]
  • 5Identifique e descreva as colaterais pélvicas no laudo: veias ilíacas internas, gonadais, ascendentes lombares e presacral dilatadas são indicadores indiretos de obstrução crônica significativa mesmo na ausência de TVP aguda [3]
  • 6Não confunda a compressão fisiológica leve da VICE (<30%) — presente em 20–25% dos indivíduos assintomáticos — com SMT clinicamente significativa. O diagnóstico de SMT requer correlação clínica obrigatória; mencionar no laudo: 'compressão de X% da VICE — correlacionar clinicamente para definir significado hemodinâmico' [1,2]
  • 7Em angioTC de abdome/pelve por outras indicações com achado incidental de achatamento da VICE: descreva o achado com mensuração e sugira correlação com Doppler venoso e avaliação clínica vascular — achado incidental pode ser a primeira pista de SMT latente [6]
  • 8Após stenting venoso ilíaco, o stent de nitinol aparece como estrutura metálica cilíndrica hiperdensa na TC sem contraste — avalie permeabilidade pela presença de realce do lúmen (stent pérvio) versus defeito de enchimento central (retrombose); artefatos de metal hardening podem limitar a avaliação — o Doppler com IVUS é superior para follow-up pós-stent [4]
  • [1]1. May R, Thurner J. The cause of the predominantly sinistral occurrence of thrombosis of the pelvic veins. Angiology. 1957;8(5):419–427.
  • [2]2. Kibbe MR, Ujiki M, Goodwin AL, Eskandari M, Yao J, Matsumura J. Iliac vein compression in an asymptomatic patient population. J Vasc Surg. 2004;39(5):937–943.
  • [3]3. Oguzkurt L, Tercan F, Pourbagher MA, Kizilkilic O, Turkoz R, Boyvat F. Computed tomography findings in 10 cases of iliac vein compression (May-Thurner) syndrome. Eur J Radiol. 2005;55(3):421–425.
  • [4]4. Neglen P, Hollis KC, Olivier J, Raju S. Stenting of the venous outflow in chronic venous disease: long-term stent-related outcome, clinical, and hemodynamic result. J Vasc Surg. 2007;46(5):979–990.
  • [5]5. Kahn SR, Comerota AJ, Cushman M, et al. The postthrombotic syndrome: evidence-based prevention, diagnosis, and treatment strategies: a scientific statement from the American Heart Association. Circulation. 2014;130(18):1636–1661.
  • [6]6. Fraser DG, Moody AR, Morgan PS, Martel AL, Davidson I. Diagnosis of lower-limb deep venous thrombosis: a prospective blinded study of magnetic resonance direct thrombus imaging. Ann Intern Med. 2002;136(2):89–98.
  • [7]7. Wolpert LM, Rahmani O, Stein B, Gallagher JJ, Drezner AD. Magnetic resonance venography in the diagnosis and management of May-Thurner syndrome. Vasc Endovascular Surg. 2002;36(1):51–57.

Imagem não disponível (Upload pendente)

Tomografia 1 de 4

Angiotomografia computadorizada de abdome e pelve com contraste endovenoso — fase venosa tardia. Reformatação coronal oblíqua ao longo do eixo da veia ilíaca comum esquerda (VICE). Identificar compressão extrínseca acentuada da VICE ao nível de L4-L5 (seta branca), determinada pelo cruzamento anteroposterior da artéria ilíaca comum direita (AICD) sobre sua face anterior. O diâmetro anteroposterior da VICE no ponto de compressão mede 4 mm, enquanto o diâmetro transverso é de 18 mm, configurando razão de compressão de ~78% — compressão grave (Grau 3 pela classificação de Neglen e Raju). Observar dilatação do segmento supracompressivo da VICE (asterisco) e opacificação das veias ilíacas internas bilaterais e das veias colaterais pélvicas esquerdas (cabeças de seta), indicando redistribuição de fluxo por obstrução crônica. A veia ilíaca externa e a veia femoral comum esquerdas estão pérvias, sem defeitos de enchimento [1,3,6].

Atenção Especial

Principais Complicações

  • Trombose venosa profunda iliofemoral esquerda aguda — principal complicação, podendo ocorrer espontaneamente ou precipitada por cofatores (gravidez, cirurgia, imobilização, contraceptivos) [1,2]
  • Tromboembolismo pulmonar (TEP) — extensão do trombo à veia cava inferior com embolização pulmonar; TVP iliofemoral tem risco de TEP superior a TVP distal [2,5]
  • Síndrome pós-trombótica grave — edema refratário, lipodermatoesclerose, úlceras venosas de difícil cicatrização; ocorre em 20–50% dos pacientes com TVP iliofemoral não recanalizada [5]
  • Flegmasia cerúlea dolens — TVP maciça com oclusão total do retorno venoso do membro inferior, causando gangrena venosa; emergência vascular com alto risco de amputação e mortalidade [2]
  • Hipertensão venosa crônica e insuficiência venosa progressiva — varicosidades extensas, refluxo valvar secundário e deterioração funcional do membro [5]
  • Trombose recorrente após tratamento inadequado — sem stent venoso, a taxa de retrombose após trombólise isolada é de 30–50% em 1 ano [4,5]
  • Oclusão de stent venoso — complicação pós-tratamento em 10–20% em 5 anos; necessita vigilância com Doppler semestral e eventual reintervenção [4]

Sempre Avaliar (Associações)

  • Trombose venosa profunda iliofemoral esquerda aguda ou crônica — presente em 50–80% dos pacientes com SMT sintomática [2]
  • Síndrome pós-trombótica (SPT) do membro inferior esquerdo — sequela de TVP não tratada ou recorrente: edema crônico, hiperpigmentação, lipodermatoesclerose e úlceras venosas [5]
  • Varizes pélvicas e síndrome de congestão pélvica — hipertensão venosa crônica da VICE dilata as veias ovarianas, uterinas e paramêtricas esquerdas [2,3]
  • Trombofilia hereditária associada — Fator V de Leiden e mutação da protrombina G20210A presentes em até 40% dos pacientes com SMT e TVP, atuando como cofatores trombogênicos [2,5]
  • Uso de contraceptivos orais combinados — fator precipitante em mulheres jovens com SMT assintomática prévia [2]
  • Trombose da veia gonadal esquerda — pode coexistir com varizes pélvicas e SMT, especialmente no puerpério [3]
  • Fibrilação atrial ou outras causas de hipercoagulabilidade adquirida — tromboembolismo venoso idiopático em jovens com SMT [5]
  • Síndrome de Klippel-Trenaunay — rara associação com malformações venosas e hipertrofia do membro inferior esquerdo [2]