Diverticulite Aguda do Cólon

Também conhecida como: Acute colonic diverticulitis, Diverticulite sigmoide, Peridiverticulite, Left-sided diverticulitis, Diverticulite de cólon direito (forma asiática)

Doença / SíndromeCID-10: K57.3 0 VIEWS

A diverticulite aguda do cólon é definida como a inflamação de um ou mais divertículos adquiridos da parede colônica, complicada por microperfuração da mucosa diverticular com extravasamento de conteúdo fecal para o tecido pericolônico adjacente [1,2]. Representa a complicação mais frequente da doença diverticular do cólon, que acomete até 65% da população ocidental acima de 65 anos [1]. O quadro clínico clássico inclui dor em fossa ilíaca esquerda (FIE) de instalação progressiva, febre, leucocitose e alteração do hábito intestinal — síndrome que, embora típica, tem sensibilidade de apenas 64–68% para o diagnóstico definitivo, justificando o papel central da imagem [2,3]. A tomografia computadorizada (TC) de abdome e pelve com contraste endovenoso é o método diagnóstico padrão-ouro, com sensibilidade de 94–97% e especificidade de 99%, superando o ultrassom e o enema opaco [2,4]. O estadiamento pela Classificação de Hinchey modificada, baseada nos achados tomográficos, orienta a decisão entre tratamento conservador (antibioticoterapia ambulatorial ou hospitalar), drenagem percutânea guiada por imagem e intervenção cirúrgica de urgência ou eletiva [1,3,5].

Fisiopatologia

A fisiopatologia da diverticulite envolve sequência de eventos iniciada pela formação dos divertículos adquiridos (pseudodivertículos) — herniações da mucosa e submucosa através dos pontos de menor resistência da camada muscular circular do cólon, localizados preferentemente nos sítios de penetração dos vasos retos (vasa recta) na tenia mesentérica e antimesentérica [1,2]. Esses pseudodivertículos carecem de todas as camadas da parede, diferindo dos divertículos verdadeiros que contêm muscular própria [1]. O mecanismo desencadeante da diverticulite é a obstrução do colo do divertículo por fecalito ou por conteúdo fecal espessado, gerando hiperpressão intraluminal, isquemia focal da mucosa, proliferação bacteriana e, finalmente, microperfuração com extravasamento de material fecal para a gordura pericolônica [2,3]. A extensão do processo inflamatório determina o espectro clínico: (1) Diverticulite não complicada: inflamação confinada ao tecido pericolônico sem perfuração macroscópica, abscesso ou fistulização — corresponde a ~75% dos casos [1]; (2) Diverticulite complicada: perfuração com formação de abscesso localizado (pericólico ou mesentérico), peritonite purulenta generalizada (perfuração coberta por alças adjacentes), peritonite fecal franca (perfuração livre para a cavidade peritoneal) ou formação de fístula colovesical, colovaginal ou coloentérica [1,3,5]. A localização predominante no sigmoide (>90% dos casos em ocidentais) reflete a maior pressão intraluminal neste segmento pela coluna fecal sólida e pela menor câmara de câmbio [1,2].

Epidemiologia

A doença diverticular do cólon é uma das condições gastrointestinais mais prevalentes no mundo ocidental, com incidência fortemente relacionada à idade e ao padrão alimentar ocidental [1,2]. A prevalência da doença diverticular aumenta de ~5% abaixo dos 40 anos para 30–50% na sexta década e ~65% após os 85 anos em países ocidentais [1]. A diverticulite aguda ocorre em 10–25% dos portadores de diverticulose ao longo da vida, com incidência anual de ~71 por 100.000 habitantes [1,3]. O sexo masculino predomina abaixo dos 50 anos (razão H:M ~2:1); após essa faixa, equiparam-se ou há leve predominância feminina [2].
Fatores de risco bem estabelecidos: dieta hipocalórica em fibras, sedentarismo, obesidade (IMC >30), uso de AINEs e corticosteroides (aumentam risco de perfuração), tabagismo e constipação crônica [1,2,3]. Em países asiáticos (Japão, Coreia, China), os divertículos predominam no cólon direito (cecal e ascendente) com etiologia congênita, acometendo pacientes mais jovens (30–40 anos) com apresentação clínica semelhante à apendicite aguda [1,2].

Modalidade: CT

A tomografia computadorizada de abdome e pelve com contraste endovenoso (fase portal venosa, 65–70 s) é o método diagnóstico padrão-ouro para diverticulite aguda, com sensibilidade de 94–97% e especificidade de 99% [2,4,6]. Permite o diagnóstico positivo da diverticulite, o estadiamento pela Classificação de Hinchey modificada, a detecção de complicações (abscesso, fistulização, perfuração livre, obstrução) e a exclusão de diagnósticos alternativos graves [2,3,4]. O protocolo ideal inclui fase sem contraste (para caracterização de densidades e cálculos) e fase portal venosa com contraste iodado (80–100 mL, fluxo 3–4 mL/s), utilizando colimação de 0,5–0,625 mm com reconstruções multiplanares coronais e sagitais obrigatórias para avaliação do retroperitônio, bacia e parede colônica [4,6]. O contraste oral (hidrossolúvel) pode ser útil para detecção de fístulas colovesicais ou coloentéricas, mas não é obrigatório na fase aguda [1].

Sinais Patognomônicos / Chave

  • Sinal do 'divertículo inflamado' ('inflamed diverticulum'): divertículo com espessamento e hiperemia da sua parede, circundado por inflamação da gordura pericolônica — sinal direto de diverticulite focal [2,4]
  • Sinal do 'fat stranding' pericolônico: hiperdensidade difusa da gordura mesentérica e pericólica por edema inflamatório — achado mais sensível da diverticulite (presente em >98% dos casos) [2,4,6]
  • Sinal da 'flecha' ('arrowhead sign'): espessamento focal da parede colônica com o divertículo inflamado apontando para o centro da alteração em reformatação coronal — orienta o diagnóstico de diverticulite focal vs. massa colônica [6]
  • Espessamento da parede colônica: espessamento segmentar simétrico da parede do sigmoide (ou outro segmento) >4 mm com hiperemia mural (realce aumentado pós-contraste) no segmento inflamado; extensão longitudinal tipicamente <10 cm — extensão >10 cm com estenose luminal significativa deve levantar suspeita de carcinoma associado [2,4]
  • Inflamação da gordura pericolônica ('fat stranding'): hiperdensidade da gordura mesentérica e pericolônica em torno do segmento inflamado com densidade entre -40 e -10 UH (normal: -100 a -80 UH) — sinal mais precoce e sensível da diverticulite; a extensão do fat stranding correlaciona-se com a gravidade da inflamação [2,4,6]
  • Divertículos adjacentes: múltiplos divertículos no mesmo segmento colônico, alguns preenchidos por ar ou fezes, evidenciando a doença diverticular subjacente — contexto fundamental para o diagnóstico diferencial com carcinoma colônico [1,2]
  • Abscesso pericólico (Hinchey Ia e Ib): coleção hipodensa (0–20 UH) com parede espessada e realce periférico em anel ('ring enhancement'), adjacente ao segmento inflamado; pode conter ar interno (borbulhas de ar = coleção infectada comunicante com o cólon) [1,3,5]
  • Abscesso pélvico ou a distância (Hinchey II): coleção hipodensa com realce periférico na pelve verdadeira (entre bexiga e reto ou em Douglas), retroperitônio ou mesentério, indicando extensão do processo além do pericólon [1,3,5]
  • Pneumoperitônio e peritonite (Hinchey III/IV): ar livre peritoneal identificado como hipodensidades extraluminais (<-100 UH) na cavidade peritoneal — avaliar sistematicamente nas janelas de partes moles (W350 C40) e pulmão (W1500 C-600); líquido livre peritoneal multiloculado indica peritonite purulenta ou fecal [3,5]
  • Fístula colovesical: ar intravesical na TC sem contraste (pneumatúria) sem cateterismo ou instrumentação recente — sinal praticamente patognomônico de fístula colovesical; espessamento da cúpula vesical e trajeto fistuloso com realce de parede confirmam o diagnóstico [1,4]
  • Sinal do 'pente' (comb sign): ingurgitamento dos vasos retos mesentéricos ipsilaterais à inflamação em reformatação coronal — indica hiperemia reativa por inflamação pericolônica ativa [6]
Modalidade: RM

A ressonância magnética de abdome e pelve é uma alternativa valiosa à TC para diagnóstico de diverticulite aguda em populações onde a redução da exposição à radiação é prioritária: mulheres grávidas, pacientes jovens (<40 anos) e pacientes com diverticulite recorrente que necessitam de múltiplos exames de acompanhamento [2,7]. A sensibilidade da RM para diverticulite é de 86–94% e a especificidade de 88–92%, ligeiramente inferiores à TC, especialmente para detecção de pneumoperitônio pequeno [7]. O protocolo inclui sequências T2 HASTE e SSFP coronais e axiais (avaliação morfológica e detecção de coleções), DWI (detecção de abscessos e focos inflamatórios), T1 com supressão de gordura pós-gadolínio (realce inflamatório e vascular) e sequências de difusão para detecção de complicações [7]. Em gestantes, o protocolo sem gadolínio (T2 e DWI) mantém boa acurácia [2,7].

Sinais Patognomônicos / Chave

  • Sinal do 'fat stranding' em T2: hipersinal da gordura pericolônica em sequências T2 com supressão de gordura (STIR ou Dixon) — edema inflamatório da gordura como hipersinal T2 contrastando com o hipossinal da gordura normal [2,7]
  • Sinal do 'divertículo inflamado' em T2: estrutura cística extramural com parede hipointensa e halo de hipersinal T2 perilesional — o halo de edema perilesional diferencia divertículo inflamado de divertículo não complicado [7]
  • T2 axial e coronal: espessamento da parede colônica como hipossinal mural com hipersinal da gordura pericolônica (fat stranding); divertículos identificados como pequenas estruturas ovoides extramurais — hipossinal quando preenchidos por fezes, hipersinal quando por líquido inflamatório [2,7]
  • T2 STIR: hipersinal da gordura edematosa pericolônica com fundo de hipossinal da gordura normal; destaque para edema do mesocólon e do retroperitônio, avaliação da extensão do processo inflamatório [7]
  • DWI com mapa ADC: abscessos e coleções infectadas exibem restrição à difusão (hipersinal DWI, hipossinal ADC) por conteúdo celular/purulento — diferenciação de coleções serosas simples (sem restrição, ADC elevado); focos inflamatórios ativos no mesocólon podem mostrar restrição moderada [7]
  • T1 pós-gadolínio com supressão de gordura: realce intenso da parede colônica inflamada e do peritônio parietal adjacente; realce periférico em anel de abscessos; trajetos fistulosos realçam após gadolínio — melhor avaliação de fístulas colovesicais e coloentéricas [7]
  • Coleções e abscessos: hipossinal T1, hipersinal T2 com cápsula hipointensa; ar interno como hipossinal nas sequências T2 GRE (efeito de suscetibilidade magnética); restrição na DWI confirma infecção [7]
Modalidade: RX

A radiografia simples de abdome em posição ortostática e em decúbito dorsal tem papel limitado no diagnóstico direto da diverticulite, sendo incapaz de visualizar os divertículos ou a inflamação pericolônica na maioria dos casos [2,4]. Entretanto, permanece como exame inicial em todo paciente com dor abdominal aguda pela sua capacidade de detectar complicações graves que alteram imediatamente a conduta cirúrgica: pneumoperitônio (perfuração livre) e oclusão intestinal [4]. O enema opaco hidrossolúvel, historicamente utilizado para diagnóstico de diverticulite complicada, foi amplamente substituído pela TC na prática clínica contemporânea, porém ainda pode ser indicado no planejamento pré-operatório para avaliação da extensão da doença e detecção de fístulas [1,4].

Sinais Patognomônicos / Chave

  • Pneumoperitônio: crescente de ar livre subdiafragmático bilateral na radiografia em ortostase — sinal de perfuração livre para a cavidade peritoneal (Hinchey IV); ausente na microperfuração coberta ou no abscesso localizado [4]
  • Sinal de Rigler (double wall sign): visualização de ambas as superfícies da parede intestinal por ar livre peritoneal envolvendo externamente o intestino — sinal de pneumoperitônio volumoso [4]
  • Sinal do 'abdome rígido sem gás': obliteração das sombras da gordura pré-peritoneal e ausência de gás intestinal por peritonite difusa — achado de gravidade [4]
  • Pneumoperitônio: ar livre subdiafragmático em radiografia em ortostase — indica perfuração macroscópica; presente em apenas 6–12% dos pacientes com perfuração por diverticulite (a maioria das perfurações é coberta por tecido adiposo e não gera pneumoperitônio franco) [4]
  • Distensão de alças do cólon esquerdo: íleo regional por inflamação pericolônica — achado inespecífico mas sugestivo no contexto clínico de dor em FIE [2]
  • Nível hidroaéreo em FIE: em oclusão colônica por diverticulite complicada com processo inflamatório compressivo extrínseco [4]
  • Radiografia normal (~50% dos casos): ausência de achados na diverticulite não complicada — não exclui o diagnóstico; TC obrigatória na suspeita clínica [2,4]
  • Enema opaco (papel histórico): espasmo do sigmoide com estreitamento luminal irregular, divertículos preenchidos ou não, defeito de enchimento por abscesso perisigmoidal; risco de perfuração em fase aguda — utilizar contraste hidrossolúvel se realizado [1]
Modalidade: US

O ultrassom abdominal com compressão graduada tem sensibilidade de 61–84% e especificidade de 84–97% para diverticulite, desempenho inferior à TC porém sem radiação ionizante [2,4]. É indicado como exame de triagem inicial em mulheres jovens (evitar TC na faixa reprodutiva), em crianças, em unidades sem TC disponível e no seguimento de diverticulite confirmada para monitorização de abscessos [2,4]. A técnica de compressão graduada (análoga à utilizada para apendicite) visa deslocar o gás intestinal e aproximar o transdutor da parede colônica sigmoide, melhorando a resolução espacial [4].

Sinais Patognomônicos / Chave

  • Sinal do 'divertículo hipoecoico': estrutura hipoecoica peri-sigmoide com halo hipoecoico perilesional ao US — divertículo inflamado com edema perilesional [4]
  • Sinal da 'parede colônica espessada': espessamento hipoecogênico da parede sigmoide com hipervascularização ao Doppler colorido — inflamação ativa da parede colônica [2,4]
  • Espessamento focal da parede sigmoide: parede >4 mm com perda da estratificação das camadas murais em segmento de 5–10 cm; hipervascularização ao Doppler colorido indica inflamação ativa [2,4]
  • Divertículos pericólicos: estruturas ecogênicas (ar) ou hipoecoicas (fezes/líquido) projetando-se da parede colônica; sombra acústica dos fecalitos; ao menos um divertículo com halo hipoecoico perilesional é o sinal diagnóstico central [4]
  • Fat stranding ao US: gordura pericolônica hiperecoica, não compressível — equivalente ultrassonográfico do fat stranding tomográfico [2,4]
  • Abscesso pericólico: coleção hipoecoica ou complexa com debris internos, adjacente ao segmento inflamado; ausência de fluxo interno ao Doppler (diferencia de massa vascularizada) [4]
  • Limitações: meteorismo, obesidade e sobreposição óssea pélvica limitam a avaliação; sensibilidade reduzida para perfuração livre e coleções profundas na pelve [2,4]

Adenocarcinoma de Cólon Sigmoide com Perfuração ou Obstrução

Como diferenciar:O carcinoma colônico pode inflamar e perfurar, gerando quadro clínico e tomográfico que simula diverticulite complicada — a distinção é crítica pois altera radicalmente o tratamento [1,2,4]. Na TC, o carcinoma produz espessamento mural ASSIMÉTRICO, irregular, com perda da diferenciação das camadas murais, frequentemente >4 cm de extensão longitudinal e com componente de massa intraluminal causando estreitamento luminal excêntrico ('apple-core' ou estenose em 'ombros' abruptos) [2,6]. Adenopatias mesentéricas ou retroperitoneais aumentadas e arredondadas (eixo curto >10 mm) são altamente sugestivas de neoplasia [6]. Na diverticulite não complicada, o espessamento mural é SIMÉTRICO, com estratificação mural preservada ('target sign' — camadas concêntricas), extensão longitudinal tipicamente <10 cm, e os divertículos adjacentes são visíveis [1,2,4]. A extensão longitudinal >10 cm com estenose irregular e ausência de divertículos adjacentes ao foco inflamado OBRIGA a colonoscopia de reavaliação 4–6 semanas após resolução do episódio agudo [1,3].

Apendicite Aguda

Como diferenciar:A apendicite clássica manifesta-se em fossa ilíaca DIREITA, enquanto a diverticulite sigmoide acomete a FIE — porém, em pacientes com alça sigmoide redundante que se projeta para a FID, ou em diverticulite de cólon direito (forma asiática), a sobreposição topográfica é real [1,2]. Na TC, a apendicite demonstra apêndice dilatado (>6 mm de diâmetro) com parede espessada, periapendicular fat stranding, apendicólito calcificado (em ~30%) — e a origem no ceco é obrigatoriamente identificada [2,4]. Na diverticulite de cólon direito, o apêndice está normal e o foco inflamatório origina-se de um divertículo do cólon ascendente ou ceco, sem relação com a base do apêndice. Em caso de dúvida, a identificação do apêndice normal e pérvio na TC exclui apendicite — ausência de visualização do apêndice não a exclui [4].

Doença de Crohn Colônica (Colite de Crohn)

Como diferenciar:A doença de Crohn (DC) pode acometer o sigmoide com espessamento mural, fat stranding e abscessos mesentéricos, mimetizando diverticulite [2].
Os elementos diferenciadores na TC incluem: (1) DC tem espessamento mural transmural com sinal de 'target' em capas (mucosa/submucosa/muscular bem demarcadas), enquanto a diverticulite tem espessamento mais homogêneo; (2) DC frequentemente apresenta envolvimento do íleo terminal com 'cobblestone' mucoso, estenoses fibrosas segmentares e fistulização enteroentérica — padrão multissegmentar que difere da diverticulite focal; (3) DC em paciente jovem (<40 anos) sem diverticulose prévia; (4) 'Comb sign' bilateral na DC vs unilateral e focal na diverticulite; (5) ulcerações aftosas e profundas na mucosa identificáveis em janela de partes moles na TC com contraste oral; (6) história de diarreia crônica sanguinolenta, perda de peso e manifestações extraintestinais [1,2,4].

Abscesso Tubovariáno / Doença Inflamatória Pélvica (DIP)

Como diferenciar:Em mulheres, o abscesso tubovariano (ATO) pode simular diverticulite complicada com abscesso pélvico — ambos produzem dor em FIE, febre e coleção na TC [2,4]. Na TC, o ATO origina-se do ovário e da tuba uterina (estruturas pélvicas internas), com parede espessada e conteúdo heterogêneo, apresentando relação anatômica com o útero e a tuba — e o sigmoide adjacente tem parede NORMAL ou apenas edema reativo extrínseco [4]. Na diverticulite complicada com abscesso pélvico, a coleção está adjacente ao cólon espessado com divertículos inflamados identificáveis e a origem no sigmoide é demonstrável [2,4]. DIP tem espessamento bilateral das trompas e ovários em contexto de corrimento vaginal purulento e história de IST [2]. Em caso de dúvida, a RM com protocolo pélvico tem melhor resolução tecidual para definir a origem ginecológica vs. colônica da coleção [7].

Isquemia Colônica (Colite Isquêmica Segmentar)

Como diferenciar:A colite isquêmica do sigmoide e do cólon esquerdo pode produzir espessamento mural, fat stranding pericolônico e dor em FIE, confundindo-se com diverticulite [2,6]. Na TC, a colite isquêmica exibe espessamento mural SIMÉTRICO em distribuição segmentar do 'watershed area' (ângulo esplênico e sigmoide proximal — territórios de menor perfusão colateral), com 'thumbprinting' (indentações murais por edema submucoso), pneumatose intestinal em casos avançados e ausência de divertículos inflamados como foco causador [2,6].
O contexto clínico é fundamental: pacientes mais idosos com aterosclerose conhecida, doença arterial periférica, insuficiência cardíaca ou pós-intervenção aórtica; diarreia sanguinolenta (característica da colite isquêmica) vs. constipação da diverticulite [2]. Pneumatose intestinal (ar na parede colônica — hipodensidade linear submucosa) indica necrose transmural e é raramente vista na diverticulite, sendo praticamente diagnóstica de isquemia grave [6].

Endometriose Sigmoide

Como diferenciar:A endometriose profunda do sigmoide causa espessamento mural e sintomas pélvicos cíclicos em mulheres em idade reprodutiva, podendo mimetizar diverticulite crônica ou recorrente na TC [7]. Na TC com contraste, a endometriose produz espessamento mural sigmoide de contorno LISO e regular, com 'kinking' (angulação) do segmento comprometido por fibrose retráctil, sem fat stranding pericolônico agudo (ausência de inflamação aguda) e sem divertículos inflamados identificáveis [7]. Na RM, a endometriose é identificada como focos de hipossinal T2 ('shading' em T2) e hipersinal T1 com supressão de gordura (hemossiderina) na parede colônica ou no fundo de saco de Douglas — padrão inexistente na diverticulite. A correlação com o ciclo menstrual (dor cíclica, dismenorreia, dispareunia) e a idade da paciente orientam o diagnóstico [7].

Adenite Mesentérica / Linfadenite Mesentérica

Como diferenciar:Agrupamento de linfonodos mesentéricos aumentados (eixo curto >5 mm) na região ileocecal ou pericólica pode produzir dor abdominal e febre simulando diverticulite — especialmente em crianças e adultos jovens [4]. Na TC, a adenite mesentérica apresenta linfonodos arredondados com realce homogêneo, sem espessamento da parede colônica e sem divertículos inflamados identificáveis; o fat stranding é perilinfonodal, não pericolônico [4]. A ausência de espessamento mural colônico e de divertículos é o elemento discriminador central — na diverticulite, o espessamento da parede sigmoide com os divertículos circundantes é a âncora diagnóstica [2,4].
Contexto epidemiológico: adenite mesentérica em jovens associada a infecção por Yersinia enterocolitica, adenovírus ou após gastroenterite recente [4].

Carcinoma de Ovário com Implante Sigmoide

Como diferenciar:O carcinoma de ovário avançado com implantes peritoneais no sigmoide e compressão extrínseca pode gerar espessamento mural secundário e dor pélvica esquerda [6]. Na TC, a neoplasia ovariana produz massa anexial sólida ou sólido-cística com realce heterogêneo, ascite peritoneal, carcinomatose com implantes omentais ('omental cake'), espessamento peritoneal — e o espessamento sigmoide é EXTRÍNSECO, sem espessamento mural primário da mucosa [6]. Na diverticulite, a origem inflamatória intramural com divertículos identificáveis no foco é a âncora diagnóstica; não há massa ovariana, implantes peritoneais ou ascite volumosa. O marcador CA-125 elevado orienta para neoplasia ovariana, embora inespecífico [2,6].

Manejo Clínico (Alto Nível)

O tratamento da diverticulite aguda é guiado pelo estadiamento de Hinchey modificado e pela condição clínica do paciente [1,3,5]. Diverticulite não complicada (Hinchey 0): pacientes sem sinais de sepse, imunossupressão, comorbidades graves ou sinais peritoneais podem ser tratados ambulatorialmente com antibióticos orais de amplo espectro por 7–10 dias — ciprofloxacino 500 mg VO 12/12h + metronidazol 500 mg VO 8/8h, ou amoxicilina-clavulanato 875/125 mg VO 12/12h — com dieta líquida e seguimento ambulatorial em 48–72 h [3]. Estudos recentes questionam a necessidade de antibioticoterapia em diverticulite leve confirmada por TC sem complicações (AVOD trial, DIABOLO trial) — conduta sem antibiótico pode ser considerada em casos selecionados [3]. Diverticulite complicada com abscesso (Hinchey Ia/Ib/II): hospitalização com antibioticoterapia intravenosa (piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6h ou ceftriaxona 2 g IV/dia + metronidazol 500 mg IV 8/8h); abscessos ≥3–4 cm indicam drenagem percutânea guiada por TC ou US, evitando cirurgia de urgência em 70–80% dos casos [1,3,5]. Peritonite purulenta ou fecal (Hinchey III/IV): cirurgia de urgência — a operação de Hartmann (sigmoidectomia com colostomia terminal e fechamento do coto retal) permanece o padrão em condições de emergência por peritonite fecal, com reconstrução do trânsito intestinal em segundo tempo (3–6 meses) [1,3]. Lavagem laparoscópica com drenagem da pelve é alternativa no Hinchey III em centros especializados com paciente hemodinamicamente estável [3,5].
Sigmoidectomia eletiva laparoscópica: indicada após resolução do episódio agudo em pacientes com diverticulite recorrente (≥2 episódios), complicações (abscesso, fistulização), estenose sintomática ou em imunossuprimidos após primeiro episódio [1,3].
Colonoscopia de reavaliação: obrigatória 4–6 semanas após resolução do episódio agudo para excluir adenocarcinoma colônico subjacente — especialmente em primeiro episódio, doença atípica e espessamento mural ≥10 cm na TC [1,3].

Dicas Cruciais pro Laudo

  • 1SEMPRE identificar e descrever o segmento colônico acometido com precisão — sigmoide (mais frequente em ocidentais), cólon descendente, cólon direito (forma asiática em jovens) — e localizar o divertículo inflamado como ponto de origem, diferenciando o espessamento mural primário (diverticulite) do extrínseco (adenite, ATO, neoplasia adjacente) [2,4]
  • 2Medir e descrever a extensão longitudinal do espessamento mural — extensão >10 cm com irregularidade mucosa, estenose luminal excêntrica ou ausência de divertículos adjacentes ao foco devem sempre gerar a recomendação de colonoscopia pós-tratamento para exclusão de carcinoma colônico [1,2]
  • 3Reportar obrigatoriamente o estadiamento de Hinchey modificado no laudo — escrever explicitamente 'Diverticulite aguda Hinchey X' orienta diretamente a conduta clínica e cirúrgica; o laudo sem estadiamento é incompleto e pode atrasar o tratamento adequado [1,3,5]
  • 4Em paciente com diverticulite e 'ar intravesical' na TC sem contraste: este achado, na ausência de cateterismo recente ou cistoscopia, é ALTAMENTE SUGESTIVO de fistulização colovesical — mencionar explicitamente, pois indica necessidade de cirurgia eletiva de fístula após resolução do processo agudo [1,4]
  • 5Pesquisar pneumoperitônio SISTEMATICAMENTE em janela de partes moles E em janela pulmonar — pequenas bolhas de ar livre peritoneal (subhepáticas, perisigmoides, interalças) são visíveis apenas na janela pulmonar em casos de perfuração mínima; ausência de pneumoperitônio na janela de partes moles não exclui perfuração [4,6]
  • 6Quando houver abscesso pericólico: medir as TRÊS dimensões, descrever a localização precisa (entre quais estruturas), presença de ar interno (indica comunicação com o lúmen colônico e facilita drenagem percutânea), e relação com vasos e ureter — informações essenciais para o radiologista intervencionista planejar a drenagem [1,5]
  • 7Em mulheres em FIE: SEMPRE avaliar os ovários e as tubas uterinas e descrever sua aparência na TC — abscesso tubovariano, cisto ovariano complicado e neoplasia ovariana são diagnósticos diferenciais frequentes que exigem conduta completamente diferente da diverticulite; a relação anatômica entre a coleção e o sigmoide vs. os anexos é o elemento discriminador central [2,7]
  • 8Diverticulite de cólon DIREITO em paciente asiático jovem: reportar como 'diverticulite do cólon direito/cecal' e recomendar correlação com apendicite aguda — o apêndice deve ser identificado e descrito como normal se visível, pois a conduta cirúrgica difere; sem identificação do apêndice, não excluir apendicite [1,4]
  • 9Documentar a presença e o número de divertículos no restante do cólon avaliado — extensão da doença diverticular tem impacto no planejamento cirúrgico eletivo; doença panencolônica tem maior risco de episódio pós-ressecção segmentar [1,3]
  • 10Após tratamento conservador de abscesso drenado, a TC de controle deve ser solicitada em 24–48 h se ausência de melhora clínica — verificar redução da coleção e reposicionamento do dreno; plateau ou aumento da coleção no controle indica necessidade de revisão do dreno ou cirurgia [5]
  • [1]1. Feingold D, Steele SR, Lee S, et al. Practice parameters for the treatment of sigmoid diverticulitis. Dis Colon Rectum. 2014;57(3):284–294.
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Tomografia 1 de 4

Tomografia computadorizada de abdome e pelve com contraste endovenoso — fase portal venosa (65 s). Corte axial ao nível do sigmoide. Achados de diverticulite aguda sigmoide complicada (Hinchey Ib): (1) Espessamento segmentar e simétrico da parede do sigmoide (seta branca, espessura ~8 mm, extensão ~6 cm) com hipervascularização mural e preservação relativa da estratificação das camadas murais — padrão inflamatório; (2) Múltiplos divertículos no sigmoide adjacente ao foco inflamado (cabeças de seta), alguns contendo ar, confirmando a doença diverticular subjacente; (3) Extenso fat stranding pericolônico: hiperdensidade difusa da gordura do mesossigmoide e da gordura pelvica perissigmoide (densidade -30 a -15 UH, vs. gordura normal -100 UH) — indicando inflamação ativa pericolônica; (4) Coleção hipodensa com realce periférico em anel ('ring enhancement', seta amarela, 3,2 × 2,8 cm) contendo pequenas bolhas de ar interno (pneumatia intracoleção), adjacente à parede posterior do sigmoide — abscesso pericólico comunicante com o lúmen colônico (Hinchey Ib). Bexiga e vasos ilíacos normais. Sem pneumoperitônio ou líquido livre peritoneal.
Estadiamento: Hinchey Ib — candidato a drenagem percutânea guiada por TC + antibioticoterapia intravenosa [1,3,5].

Atenção Especial

Principais Complicações

  • Peritonite purulenta generalizada (Hinchey III) — ruptura espontânea de abscesso pericólico para a cavidade peritoneal livre; mortalidade de 13–20%; cirurgia de emergência obrigatória [1,3,5]
  • Peritonite fecal franca (Hinchey IV) — perfuração macroscópica com extravasamento de fezes para a cavidade peritoneal; mortalidade de 35–50%; maior urgência cirúrgica [1,3,5]
  • Abscesso pericólico ou pélvico — complicação mais frequente (~15–20% dos casos de diverticulite); drenagem percutânea guiada por TC evita cirurgia de urgência em 70–80% [1,5]
  • Fistulização colovesical (Fistula colovesical) — complicação tardia em 2–4%; tratamento cirúrgico eletivo após controle do processo agudo [1,3]
  • Obstrução colônica mecânica — por edema inflamatório agudo (reversível) ou estenose fibrótica crônica (requer ressecção eletiva) [1,3]
  • Diverticulite recorrente — ocorre em 15–25% dos pacientes após episódio inicial; cada episódio subsequente aumenta o risco de complicação; indicação relativa de sigmoidectomia eletiva após 2 episódios em paciente imunocompetente ou 1 episódio em imunossuprimido [1,3]
  • Sepse grave e choque séptico — por translocação bacteriana ou bacteriemia de foco abdominal em peritonite não controlada; mortalidade significativa em idosos e imunossuprimidos [3,5]
  • Transformação maligna — hipótese controversa; a diverticulite recorrente não está estabelecida como fator de risco independente para adenocarcinoma, mas a colonoscopia pós-episódio é mandatória para excluir neoplasia subjacente [1,3]

Sempre Avaliar (Associações)

  • Doença diverticular do cólon sigmoide e descendente — doença de base responsável por todos os episódios de diverticulite; divertículos múltiplos do sigmoide visíveis adjacentes ao foco inflamado em >95% dos casos [1,2]
  • Espessamento da fáscia parietal pélvica — edema e espessamento reativo da fáscia parietal do assoalho pélvico ipsilateral ao processo inflamatório [2]
  • Linfadenomegalia mesentérica reativa — linfonodos mesentéricos aumentados (5–10 mm) pericólicos por hiperplasia reativa ao processo inflamatório; devem regredir com o tratamento [2,4]
  • Fistulização colovesical — complicação presente em 2–4% dos casos; manifestada por pneumatúria, fecalúria e infecções urinárias recorrentes por flora colônica polimicrobiana; ar intravesical na TC sem contraste é sinal altamente específico [1,3]
  • Fistulização colovaginal — mais rara, em mulheres com histerectomia prévia; secreção fecaloide vaginal [1]
  • Fistulização coloentérica (coloileal) — criação de comunicação entre o sigmoide e alças do intestino delgado; pode causar diarreia volumosa e síndrome de alça cega [1,3]
  • Estenose colônica pós-diverticulite — fibrose cicatricial progressiva após episódios recorrentes; pode evoluir para obstrução colônica mecânica e simular neoplasia na TC [1,3]
  • Constipação crônica e dieta ocidental hipocalórica em fibras — fator de risco modificável presente na anamnese da maioria dos pacientes [1,2]