Cisto Renal Simples (Lesão Cística Renal Bosniak I)

Também conhecida como: Simple renal cyst, Cisto cortical renal benigno, Cisto parenquimatoso renal, Cisto renal adquirido simples

Doença / SíndromeCID-10: N28.1 0 VIEWS

O cisto renal simples é a lesão renal sólida ou cística mais frequente na prática radiológica, definido como uma coleção de fluido seroso revestida por epitélio tubular achatado, sem septos, calcificações, componente sólido ou realce após contraste [1]. Trata-se de achado incidental benigno na grande maioria dos casos, classificado como Bosniak I — a categoria de menor risco de malignidade (<1%) da classificação de Bosniak (versão 2019, AJKD) [2]. Clinicamente silencioso na quase totalidade dos casos, raramente torna-se sintomático quando volumoso (dor no flanco por distensão capsular), infectado (febre, bacteriemia) ou quando comprime estruturas adjacentes (hidronefrose por compressão do sistema coletor) [1,3]. O diagnóstico é estabelecido com segurança pelo ultrassom (US) quando preenchidos os quatro critérios clássicos de benignidade: anecogenicidade completa, paredes finas e imperceptíveis, reforço acústico posterior e ausência de fluxo ao Doppler [1,4]. Quando os critérios de US não são plenamente satisfeitos, a tomografia computadorizada (TC) multifásica ou a ressonância magnética (RM) com protocolo de massa renal são os métodos de confirmação e estadiamento segundo a classificação de Bosniak, que direciona toda a conduta [2]. Cistos Bosniak I e II não necessitam de acompanhamento por imagem, enquanto Bosniak IIF, III e IV exigem seguimento ou intervenção [2,3].

Fisiopatologia

Os cistos renais simples originam-se predominantemente da ectasia e obstrução focal de túbulos renais coletores, com dilatação progressiva e separação do néfron de origem por fibrose perilesional [1,3]. A hipótese mais aceita postula que microobstruções tubulares — por isquemia focal, trauma, inflamação ou simplesmente por envelhecimento com esclerose arteriolar progressiva — geram acúmulo de fluido intratubular com expansão cística progressiva, desconexão do sistema tubular e manutenção da pressão intraluminal pelo epitélio secretor de revestimento [1]. O epitélio de revestimento é constituído por células cuboidais a achatadas de origem tubular, que secretam fluido isotônico com composição semelhante ao ultrafiltrado plasmático — daí a atenuação próxima à água (0–20 UH) na TC sem contraste [1,3]. Em cistos de grandes dimensões, o epitélio pode sofrer metaplasia escamosa por trauma repetido das paredes. A parede cística é avascular, sem músculo liso nem elementos glandulares, o que explica a ausência de realce ao contraste — critério diagnóstico fundamental [2,4]. O aumento progressivo com a idade reflete a natureza adquirida e acumulativa do processo: cada década de vida adiciona novos eventos de obstrução tubular focal, explicando a prevalência crescente de cistos múltiplos em idosos [1,5].

Epidemiologia

Os cistos renais simples são extremamente comuns na população adulta, com prevalência fortemente relacionada à idade [1,5]. Estudos de necropsia e de TC abdominal demonstram prevalência de ~5% antes dos 40 anos, aumentando progressivamente para ~20–30% na quinta década e atingindo ~35–50% após os 60 anos [1,5]. Após os 80 anos, mais de 50% dos indivíduos apresentam ao menos um cisto renal identificável em métodos de imagem de alta resolução [5]. A prevalência é ligeiramente superior no sexo masculino em todas as faixas etárias, com razão H:M de aproximadamente 1,5–2:1 [1,3]. Cistos múltiplos bilaterais são comuns em idosos e não representam, por si só, indicação de investigação para doenças policísticas hereditárias quando os critérios de benignidade são satisfeitos e o contexto clínico é adequado [3,5]. Hipertensão arterial sistêmica e doença renal crônica são condições frequentemente associadas ao aumento da prevalência e multiplicidade dos cistos, refletindo o substrato isquêmico tubular comum [1].

Modalidade: CT

A tomografia computadorizada multifásica (sem contraste, fase corticomedular, fase nefrográfica e, quando necessário, fase excretora) é o método padrão-ouro para caracterização de lesões císticas renais indeterminadas ao US e para estadiamento pela Classificação de Bosniak [1,2,6]. O protocolo de massa renal inclui obrigatoriamente a fase sem contraste (para medição da atenuação basal e identificação de hiperdensidade espontânea) e a fase nefrográfica (90–120 segundos após contraste), que maximiza a diferença de atenuação entre tecido renal normal e lesões hipovasculares [2,6]. A mensuração de atenuação do cisto deve ser realizada com ROI (region of interest) posicionado no centro da lesão, evitando as paredes e artefatos de volume parcial, em pelo menos três cortes consecutivos [2].

Sinais Patognomônicos / Chave

  • Sinal do 'cisto water-density': atenuação homogênea entre 0 e 20 UH na TC sem contraste — atenuação próxima à da água (0 UH) é o parâmetro diagnóstico cardinal do cisto simples [1,2]
  • Ausência de realce ('non-enhancing'): variação de atenuação entre fase sem contraste e fase nefrográfica <10 UH (critério de Bosniak 2019) — variações ≥10 UH são consideradas realce significativo e excluem a categoria Bosniak I [2,6]
  • Sinal do 'halo periférico': linha hipodensa fina ao redor do cisto correspondente à cápsula fibrosa — achado normal que não deve ser confundido com espessamento mural patológico [1]
  • TC sem contraste: lesão hipodensa, homogênea, com atenuação entre 0 e 20 UH; ausência de calcificações, septos, conteúdo sólido ou hiperdensidade espontânea (cistos hiperdensos têm atenuação >20 UH e são classificados separadamente como Bosniak II quando pequenos e homogêneos) [2,6]
  • Paredes imperceptíveis ou muito finas: a parede do cisto simples é tão delgada que frequentemente não é individualizada na TC; quando visível, espessura <2 mm, uniforme e sem realce nodular [1,2]
  • Ausência de realce pós-contraste: critério absoluto — medir atenuação no mesmo ROI nas fases sem contraste e nefrográfica; variação <10 UH confirma lesão não realçante (Bosniak I); pseudorrealce por artefato de volume parcial em cistos <1,5 cm pode gerar aparente variação de até 10–15 UH, mas o contexto morfológico (paredes finas, homogeneidade) orienta o diagnóstico [2,6]
  • Artefato de pseudorrealce: cistos pequenos (<1,5 cm) adjacentes ao parênquima renal podem apresentar aumento aparente da atenuação pós-contraste por volume parcial com o parênquima enhancing adjacente — ARMADILHA clássica; resolver com RM (sem artefato de pseudorrealce) ou com cortes finos de reconstrução [2,6]
  • Cistos hiperdensos (Bosniak II por atenuação): cistos com atenuação >20 UH na TC sem contraste por conteúdo proteico, hemorrágico ou colesterol — quando homogêneos, <3 cm, sem realce, sem septos e sem componente sólido, classificam-se como Bosniak II (benigno, sem acompanhamento necessário) [2]
  • Fase excretora: cistos parapélvicos não preenchem com contraste no sistema coletor — diferenciação de cálice dilatado ou divertículo calicinal, que se comunicam com o sistema coletor e preenchem na fase excretora [3,6]
Modalidade: RM

A ressonância magnética com protocolo de massa renal é o método mais sensível para caracterização de lesões císticas renais, especialmente na detecção de septos finos, nódulos murais e realce sutil não identificados pela TC [1,2,7]. Está indicada quando a TC é inconclusiva, quando há suspeita de realce em lesão aparentemente cística, em pacientes jovens (eliminação de radiação ionizante), nefropatas (evitar contraste iodado nefrotóxico) e na caracterização de cistos hiperdensos na TC [7]. O protocolo inclui sequências T2 de alta resolução (HASTE ou TSE), T1 fora de fase e em fase, sequências de subtração (T1 pré e pós-gadolínio com subtração pixel a pixel) e DWI com mapa ADC — as sequências de subtração são fundamentais para detecção de realce sutil [7].

Sinais Patognomônicos / Chave

  • Sinal do 'hipersinal T2 puro': o cisto simples apresenta hipersinal T2 uniforme e muito elevado, idêntico ao do líquido cerebroespinhal (LCR) — qualquer redução do sinal T2 intracístico (hipossinal relativo) indica conteúdo complexo (proteico, hemorrágico ou coloide) e excede os critérios de Bosniak I [1,7]
  • Sinal da 'subtração negativa': nas imagens de subtração (pós-Gd menos pré-Gd), o cisto simples apresenta sinal nulo ou negativo — sinal positivo na subtração confirma realce e exclui Bosniak I [2,7]
  • Sinal do 'hipossinal T1 puro': cisto simples com conteúdo aquoso puro apresenta hipossinal T1 uniforme, sem focos de hipersinal que indicariam conteúdo hemorrágico ou proteico [1,7]
  • T2: hipersinal homogêneo e intenso (sinal idêntico ao da urina na pelve renal normal); paredes imperceptíveis ou muito finas de hipossinal; ausência de septos, nódulos ou componente sólido — qualquer conteúdo de hipossinal intracístico em T2 indica proteína ou hemorragia e reclassifica a lesão [1,7]
  • T1: hipossinal homogêneo (conteúdo aquoso); cistos com hipersinal T1 indicam conteúdo proteico, hemorrágico (metaemoglobina) ou colesterol — esses cistos T1-hiperintensos podem ser Bosniak II quando homogêneos, sem realce e sem outros critérios de complexidade [2,7]
  • DWI/ADC: o conteúdo do cisto simples tem ADC muito elevado (>2,5–3,0 × 10⁻³ mm²/s), similar ao da urina — sem restrição à difusão; restrição focal na parede ou conteúdo (ADC baixo) é sinal de componente celular (tumor, abscesso, pus) [7]
  • Sequências de subtração pós-Gd: método mais sensível para realce mínimo — cortes finos T1 com supressão de gordura antes e após gadolínio com subtração pixel a pixel; qualquer zona de sinal positivo na subtração confirma realce e reclassifica a lesão; resolução de artefatos de pseudorrealce da TC [2,7]
  • Cistos parapélvicos na RM: hipersinal T2, hipossinal T1, sem comunicação com o sistema coletor nas sequências T2 coronais — diferenciação de dilatação pielocalicinal pela ausência de conexão anatômica com a pelve e pelos múltiplos cistos independentes [3,7]
Modalidade: US

O ultrassom com Doppler colorido é o método de primeira linha para diagnóstico de cisto renal simples, com sensibilidade >90% e especificidade próxima a 100% quando os quatro critérios clássicos são integralmente satisfeitos [1,4]. A avaliação deve incluir o cisto em pelo menos dois planos ortogonais e com uso do Doppler colorido ou power Doppler para confirmar ausência de vascularização interna. O transdutor de alta frequência (5–12 MHz) é preferível para cistos corticais superficiais; transdutor convexo de 3,5–5 MHz para cistos profundos ou em pacientes com maior espessura de partes moles [4].

Sinais Patognomônicos / Chave

  • Sinal do 'reforço acústico posterior' (posterior acoustic enhancement): hipersinal na parede posterior e no tecido renal imediatamente posterior ao cisto, resultante da maior transmissão do feixe ultrassonográfico através do conteúdo líquido com menor atenuação comparado ao parênquima adjacente — sinal obrigatório do cisto simples verdadeiro [1,4]
  • Sinal da 'parede imperceptível': a parede cística é tão fina que não é individualizada pelo ultrassom; quando visível, espessura <1 mm e contorno liso e regular [1]
  • Sinal do 'edge shadowing': sombra acústica nas bordas laterais do cisto por refração do feixe — achado típico de lesões com interface abrupta fluido-tecido, reforça o diagnóstico de cisto simples [4]
  • Anecogenicidade completa: ausência absoluta de ecos internos em toda a extensão do cisto — qualquer eco interno (mesmo único) invalida o critério de simplicidade e exige avaliação por TC ou RM para estadiamento Bosniak [1,4]
  • Paredes finas e regulares: espessura da parede não mensurável ou <1 mm, com contorno interno e externo lisos, sem projeções intraluminais, espessamento focal ou nódulo mural [1]
  • Reforço acústico posterior obrigatório: hipersinal posterior ao cisto — ausência do reforço em cisto aparentemente anecoico deve levantar suspeita de pseudocisto com conteúdo complexo (hematoma, abscesso, cisto colesterol) [4]
  • Ausência de fluxo ao Doppler colorido e power Doppler: confirma natureza avascular da lesão; presença de sinal de fluxo interno é critério de exclusão de cisto simples e obriga investigação de componente sólido vascularizado [1,4]
  • Formato esférico a ovoide com contorno bem definido: margem nítida com o parênquima renal adjacente; distorção do contorno renal em cistos volumosos (>3 cm) é esperada sem significado patológico adicional [1]
  • Cistos parapélvicos: localização no seio renal, podendo simular dilatação do sistema coletor (hidronefrose) — diferenciação pela observação de múltiplos cistos confluentes sem comunicação com a pelve, ausência de pelve dilatada real e confirmação por urografia por TC quando necessário [3,4]

Carcinoma de células renais variante cística (ccRCC cístico / Bosniak III–IV)

Como diferenciar:O ccRCC cístico apresenta pelo menos um dos critérios de complexidade: septo(s) espesso(s) (≥4 mm), realce mensurável dos septos ou da parede (ΔUH ≥10 UH ou sinal positivo na subtração RM), nódulo mural com realce, calcificação irregular ou espessa associada a componente de partes moles [2]. Na TC multifásica, o componente sólido do ccRCC realça intensamente na fase corticomedular (frequentemente >80 UH) com washout na fase tardia — padrão ausente no cisto simples. No cisto simples Bosniak I, não há qualquer realce detectável, paredes ou septos visíveis; na TC sem contraste, atenuação homogênea de 0–20 UH sem nódulo ou espessamento focal [1,2,6].

Cisto hemorrágico (Bosniak II — cisto hiperdenso com conteúdo hemorrágico)

Como diferenciar:O cisto hemorrágico apresenta hiperdensidade espontânea (>20 UH, frequentemente 50–90 UH) na TC sem contraste por metaemoglobina ou hemossiderina — distingue-se imediatamente do cisto simples (0–20 UH) [1,2]. Na RM, hipersinal T1 uniforme (metaemoglobina) diferencia do cisto simples (hipossinal T1). A chave diagnóstica é a AUSÊNCIA de realce — cisto hemorrágico Bosniak II é hiperdenso na TC sem contraste e não realça após contraste (∆UH <10 UH). Quando apresenta realce ou componente sólido associado, reclassifica para Bosniak III ou IV e a hipótese de ccRCC com componente hemorrágico deve ser considerada [2,6].

Cisto parapélvico versus hidronefrose / dilatação pielocalicinal

Como diferenciar:Os cistos parapélvicos localizam-se no seio renal e podem mimetizar dilatação do sistema coletor (pseudohidronefrose) ao US por compressão extrínseca da pelve renal [3]. A diferenciação é feita pela TC com fase excretora ou pela urografia por RM: os cistos parapélvicos NÃO se comunicam com o sistema coletor e não preenchem com contraste na fase excretora — são lesões completamente separadas do sistema tubular; a hidronefrose verdadeira mostra comunicação contínua com a pelve e ureter dilatado, com preenchimento de contraste na fase excretora [3,6]. O US Doppler não detecta fluxo nos cistos; na hidronefrose, pode-se identificar a causa obstrutiva (cálculo, tumor, compressão extrínseca).

Oncocitoma renal com componente cístico central (cicatriz estelar)

Como diferenciar:O oncocitoma classicamente apresenta componente sólido hipervascular com cicatriz estelar central hipodensa — padrão distinto de cisto puro; o 'componente sólido' realça intensamente na fase corticomedular. Quando o oncocitoma tem área necrótica central simulando cisto, os bordos do componente sólido periférico realçam, há paredes irregulares e espessas, e a lesão não satisfaz os critérios de Bosniak I [1,6]. O cisto simples verdadeiro é completamente avascular, sem componente sólido e sem realce em qualquer fase — a ausência absoluta de realce é o discriminador definitivo [2].

Angiomiolipoma com componente cístico predominante (AML cístico)

Como diferenciar:O AML típico contém gordura macroscópica identificável na TC sem contraste como área de atenuação negativa (< -10 UH) — achado patognomônico ausente no cisto simples [1,6]. O AML pobre em gordura (fat-poor AML) pode simular cisto hiperdenso, mas é homogeneamente hipointenso em T2 (baixo sinal por tecido muscular liso) — critério oposto ao do cisto simples (hipersinal T2 intenso e homogêneo). No DWI, o AML não mostra restrição significativa, mas o padrão T2 negativo diferencia eficazmente do cisto em qualquer tamanho [7].

Abscesso renal ou cisto infectado (pionefrose localizada)

Como diferenciar:O abscesso renal apresenta conteúdo complexo com ecos internos ao US (detritos, nível líquido-líquido), espessamento e irregularidade da parede, e pode exibir realce periférico em anel ('ring enhancement') na TC com contraste — padrão de 'coleção necrótica' distinto do cisto simples [1,3]. Na RM, o abscesso apresenta restrição intensa à difusão (ADC muito baixo, <1,0 × 10⁻³ mm²/s) pelo conteúdo purulento denso — o cisto simples tem ADC >2,5 sem restrição. Clinicamente, febre, leucocitose, bacteriúria e dor local acompanham o abscesso; o cisto simples é assintomático. A TC mostra edema do parênquima perilesional no abscesso — ausente no cisto simples [1,3].

Doença Renal Policística Autossômica Dominante (DRPAD) com cistos numerosos

Como diferenciar:A DRPAD manifesta-se como rins bilateralmente aumentados de volume com inúmeros cistos de diferentes tamanhos substituindo virtualmente todo o parênquima funcional — morfologia radicalmente distinta dos 1–3 cistos isolados típicos do envelhecimento normal [3,5]. Na TC e RM, os cistos da DRPAD frequentemente apresentam conteúdo hemorrágico (hipersinal T1, hiperdensidade TC) por hemorragias intracísticas recorrentes, paredes calcificadas e assimetria de sinal entre diferentes cistos no mesmo rim — padrão heterogêneo.
O contexto clínico é essencial: história familiar positiva, hipertensão arterial em jovens, insuficiência renal progressiva, cistos hepáticos e pancreáticos associados [3,5].
Critérios diagnósticos de Ravine: ≥3 cistos renais (unilateral ou bilateral) antes dos 40 anos em familiar de 1° grau com DRPAD; ≥2 por rim entre 40–59 anos [5].

Metástase renal hipovascular (colo, mama, pulmão) com aparência pseudocística

Como diferenciar:Metástases renais hipovasculares de tumores primários de colo, pulmão ou mama podem apresentar baixa atenuação simulando cistos na TC [6]. A diferenciação crítica é pelo comportamento ao contraste: metástases exibem realce mensurável (mesmo que sutil, ≥10 UH na fase nefrográfica), paredes irregulares ou nodulares e frequentemente são bilaterais e múltiplas no contexto de neoplasia conhecida [6]. Na RM, metástases hipovasculares mostram hipossinal T2 relativo (não o hipersinal puro do cisto simples) e restrição moderada à difusão. O contexto oncológico é fundamental — em paciente com neoplasia ativa, toda lesão renal aparentemente cística deve ser avaliada com TC multifásica ou RM dedicada antes de ser classificada como benigna [6,7].

Manejo Clínico (Alto Nível)

O manejo dos cistos renais é inteiramente baseado na Classificação de Bosniak (versão 2019) e na sintomatologia do paciente [1,2,3]. Cistos Bosniak I e II, que constituem a esmagadora maioria dos cistos simples, NÃO necessitam de acompanhamento por imagem, biópsia ou tratamento — o paciente deve ser simplesmente tranquilizado quanto à natureza benigna do achado [2]. Cistos Bosniak IIF necessitam de acompanhamento com TC ou RM em 6 meses, 1 ano, 3 anos e 5 anos; estabilidade por 5 anos sem alterações classifica a lesão como benigna definitiva [2]. Cistos Bosniak III (indeterminados, ~50% de malignidade) têm abordagem individualizada: pacientes jovens, saudáveis e com boa reserva renal são candidatos a nefrectomia parcial laparoscópica; pacientes idosos ou com comorbidades graves podem ser submetidos a vigilância ativa com RM a cada 6 meses por 2 anos, com intervenção se houver progressão [2,3]. Cistos Bosniak IV (>85% de malignidade) requerem nefrectomia parcial quando tecnicamente possível, preservando néfrons — o princípio da nefrectomia radical deve ser evitado em lesões <4 cm [2,3]. Para cistos sintomáticos Bosniak I (dor por distensão, compressão do sistema coletor), a escleroterapia percutânea com etanol (aspiração + injeção de etanol absoluto) tem taxa de sucesso de ~80–90% com morbidade mínima, sendo o tratamento minimamente invasivo de escolha [3,5]. A marsupialização laparoscópica (desroofing) é reservada para cistos volumosos, de acesso cirúrgico mais favorável ou após falha da escleroterapia [3].

Dicas Cruciais pro Laudo

  • 1NUNCA laudar 'cisto simples' ao ultrassom sem confirmar os quatro critérios: anecogenicidade completa, paredes imperceptíveis, reforço acústico posterior e ausência de fluxo ao Doppler — a ausência de qualquer critério obriga complementação por TC ou RM e estadiamento Bosniak explícito no laudo [1,4]
  • 2Em TC, SEMPRE medir a atenuação do cisto em UH na fase sem contraste e na fase nefrográfica com ROI posicionado no centro da lesão — incluir esses valores numericamente no laudo; 'cisto simples' sem os valores de atenuação é um laudo incompleto que pode gerar condutas inadequadas [2,6]
  • 3Artefato de pseudorrealce em cistos <1,5 cm na TC: pode gerar aparente aumento de atenuação de até 10–15 UH por efeito de volume parcial com o parênquima realçante adjacente — resolver com RM (sequências de subtração eliminam o pseudorrealce) antes de reclassificar para Bosniak IIF ou superior [2,6]
  • 4Sempre classificar a lesão pela Classificação de Bosniak no laudo, inclusive para Bosniak I — escrever 'Lesão cística simples, Bosniak I — sem indicação de acompanhamento por imagem' é a formulação correta que orienta o clínico e evita seguimentos desnecessários [2]
  • 5Em paciente com rim único, DRC, transplante renal ou histórico oncológico, qualquer lesão cística renal — mesmo com aparência de cisto simples — deve ser avaliada com RM dedicada e descrita com protocolo Bosniak completo antes de dispensar acompanhamento [3,7]
  • 6Cistos parapélvicos bilaterais em adulto jovem (<40 anos) com múltiplos cistos renais: SEMPRE pesquisar história familiar de doença renal policística — mencionar no laudo 'correlacionar com história familiar para exclusão de DRPAD' quando há múltiplos cistos bilaterais em jovem [3,5]
  • 7Síndrome de Von Hippel-Lindau e esclerose tuberosa devem ser consideradas no laudo quando há cistos múltiplos associados a outras lesões características: angiomiolipomas bilaterais (esclerose tuberosa), hemangioblastomas cerebelares ou pancreáticos (VHL) — incluir correlação clínica recomendada [5]
  • 8Em cisto com calcificação: descrever a morfologia da calcificação (fina periférica, grosseira, nodular) — calcificação fina periférica em casca de ovo sem componente sólido é Bosniak II; calcificação espessa, nodular ou irregular associada a partes moles é critério de Bosniak IIF a IV e deve constar explicitamente no laudo [2]
  • 9Não confundir cisto parapélvico com hidronefrose ao US — sempre complementar com TC urográfica (fase excretora) em caso de dúvida; laudar 'estruturas císticas no seio renal sugestivas de cistos parapélvicos — confirmar ausência de comunicação com o sistema coletor por TC urográfica' [3,4]
  • [1]1. Curry NS, Cochran ST, Bissada NK. Cystic renal masses: accurate Bosniak classification requires adequate renal CT. AJR Am J Roentgenol. 2000;175(2):339–342.
  • [2]2. Silverman SG, Pedrosa I, Ellis JH, et al. Bosniak Classification of Cystic Renal Masses, Version 2019: An Update Proposal and Needs Assessment. Radiology. 2019;292(2):475–488.
  • [3]3. Israel GM, Bosniak MA. How I do it: evaluating renal masses. Radiology. 2005;236(2):441–450.
  • [4]4. Quaia E, Bertolotto M, Cioffi V, et al. Comparison of contrast-enhanced sonography with unenhanced sonography and contrast-enhanced CT in the diagnosis of malignancy in complex cystic renal masses. AJR Am J Roentgenol. 2008;191(4):1239–1249.
  • [5]5. Bisceglia M, Galliani CA, Senger C, Stallone C, Sessa A. Renal cystic diseases: a review. Adv Anat Pathol. 2006;13(1):26–56.
  • [6]6. Herts BR, Silverman SG, Hindman NM, et al. Management of the incidental renal mass on CT: a white paper of the ACR Incidental Findings Committee. J Am Coll Radiol. 2018;15(2):264–273.
  • [7]7. Pedrosa I, Chou MT, Ngo L, et al. MR classification of renal masses with pathologic correlation. Eur Radiol. 2008;18(2):365–375.

Imagem não disponível (Upload pendente)

Ultrassom 1 de 4

Ultrassonografia renal com Doppler colorido — corte longitudinal do rim direito. Identificar cisto cortical simples no polo superior renal (seta branca), medindo 3,2 × 2,8 cm, com os quatro critérios diagnósticos de benignidade integralmente satisfeitos: (1) anecogenicidade completa — ausência absoluta de ecos internos em toda a extensão da lesão; (2) parede imperceptível — interface com o parênquima renal adjacente tênue e regular, espessura não mensurável; (3) reforço acústico posterior marcante — hipersinal na parede posterior do cisto e no parênquima renal imediatamente posterior (cabeça de seta), resultante da maior transmissão do feixe ultrassonográfico através do conteúdo líquido; (4) ausência de fluxo ao Doppler colorido (painel direito) — confirmando natureza completamente avascular da lesão. Sombra lateral por refração ('edge shadowing') nas bordas do cisto (setas finas). Parênquima renal adjacente com ecotextura preservada. Achados diagnósticos de cisto renal simples — Bosniak I. Nenhuma investigação adicional ou acompanhamento por imagem indicado [1,4].

Atenção Especial

Principais Complicações

  • Hemorragia intracística espontânea — produz dor aguda no flanco por distensão capsular; transforma o cisto Bosniak I em Bosniak II (cisto hiperdenso); raramente exige intervenção, resolve espontaneamente [1,3]
  • Infecção do cisto (cistopirite ou abscesso intracístico) — complicação incomum, mais frequente em imunossuprimidos e diabéticos; manifesta-se com febre, bacteriemia e dor local; tratamento com antibioticoterapia e eventualmente drenagem percutânea [3]
  • Compressão do sistema coletor com hidronefrose obstrutiva — em cistos parapélvicos ou corticais volumosos (>5 cm) com localização estratégica adjacente à junção ureteropélvica; indica drenagem percutânea ou marsupialização laparoscópica [1,3]
  • Ruptura espontânea para o retroperitônio — rara; hematoma perirrenal ou urinoma por comunicação do cisto com o sistema coletor; diagnóstico por TC com fase excretora [3]
  • Transformação maligna — rara e controversa para cistos Bosniak I verdadeiros (<1% de malignidade); o desenvolvimento de malignidade em cisto simples é discutido, sendo mais provável que represente carcinoma com aparência cística desde a origem em lesão inicialmente sub-resolvida pelos critérios de imagem [2]
  • Hipertensão renovascular por compressão arterial — cistos volumosos do polo superior podem comprimir a artéria renal ou seus ramos segmentares, gerando isquemia focal e ativação do sistema renina-angiotensina; rara mas documentada [1]

Sempre Avaliar (Associações)

  • Hipertensão arterial sistêmica — associação epidemiológica frequente; cistos múltiplos e rins com doença microvascular compartilham substrato isquêmico tubular [1]
  • Doença renal crônica (DRC) — cistos adquiridos múltiplos são mais prevalentes em pacientes com DRC e em diálise (doença renal cística adquirida, com cistos bilaterais pequenos e múltiplos no rim atrófico) [3,5]
  • Cistos hepáticos simples — associação não hereditária frequente em adultos; não implica diagnóstico de síndrome policística hereditária quando isolados e sem história familiar [3]
  • Litíase renal — pode coexistir independentemente; cálcio em parede cística deve ser categorizado como Bosniak IIF ou III dependendo da morfologia [2]
  • Doença renal policística autossômica dominante (DRPAD) — quando há cistos renais bilaterais numerosos em adulto jovem com história familiar positiva, afastar DRPAD antes de classificar como cistos simples múltiplos adquiridos [3,5]
  • Esclerose tuberosa — cistos renais múltiplos associados a angiomiolipomas em jovens; o diagnóstico de esclerose tuberosa muda o manejo e exige vigilância diferenciada [5]
  • Síndrome de Von Hippel-Lindau — cistos renais múltiplos com alto risco de transformação maligna para ccRCC; requer protocolo intensivo de vigilância diferente dos cistos simples adquiridos [3,5]